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quinta-feira, agosto 20, 2026
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Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores brasileiros está buscando enfrentar uma das complicações mais graves do diabetes: as feridas que surgem nos pés e podem evoluir para infecções e amputações. Desenvolvido na Universidade de Brasília (UnB), o sistema Rapha combina uma biomembrana de látex natural com fototerapia por luz de LED para estimular processos relacionados à regeneração dos tecidos.

A proposta chama atenção pela possibilidade de oferecer uma alternativa terapêutica de baixo custo para o tratamento de úlceras do pé diabético. O dispositivo já passou por diferentes etapas de pesquisa e desenvolvimento e atualmente está no processo de translação da tecnologia para a indústria e de regularização sanitária.

Quando uma ferida pode virar uma complicação grave

O chamado pé diabético está relacionado a alterações provocadas pelo diabetes, entre elas a neuropatia periférica e alterações vasculares. A perda de sensibilidade pode fazer com que pequenos traumas passem despercebidos e evoluam para úlceras, infecções e, em casos graves, amputações.

A Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda que todos os pacientes com diabetes sejam avaliados para neuropatia periférica no momento do diagnóstico do diabetes tipo 2 e cinco anos após o diagnóstico do tipo 1. Quando o rastreamento é negativo, a avaliação deve ser repetida anualmente. A entidade também destaca a importância da vigilância regular dos pés, da educação do paciente e do controle glicêmico e metabólico.

É justamente nesse cenário que tecnologias voltadas à cicatrização buscam atuar: acelerar a recuperação da lesão e evitar que uma ferida evolua para complicações mais graves.

Como funciona a tecnologia

O Rapha associa dois recursos. A biomembrana produzida a partir do látex natural é colocada sobre a ferida, enquanto o equipamento emite luz de LED sobre a região. Estudos desenvolvidos na UnB investigaram a utilização conjunta da biomembrana e da fototerapia para estimular a regeneração tecidual.

A pesquisa sobre a tecnologia começou há mais de uma década. Em 2013, estudos acadêmicos passaram a investigar a associação entre o látex e um circuito emissor de luz LED para o tratamento do pé diabético. O projeto chegou à fase de ensaios clínicos e, posteriormente, avançou para a etapa de transferência tecnológica para a indústria.

A trajetória, porém, ainda não significa que a tecnologia possa ser considerada uma solução definitiva para evitar amputações.

O que a tecnologia pode fazer, e o que ainda precisa ser comprovado

Para o endocrinologista Alberto Gomes, do Hospital Santa Rita, os resultados iniciais são promissores, mas ainda é necessário diferenciar uma tecnologia com potencial de uma solução cuja eficácia esteja definitivamente comprovada.

“Os estudos publicados até agora mostram melhora da cicatrização das úlceras, porém são estudos muito pequenos, alguns com apenas 13 a 15 pacientes. Eles não comprovam que o dispositivo reduz amputações pela metade.”

Segundo o médico, reduzir a área de uma ferida é um resultado relevante, mas não equivale a demonstrar uma redução nas taxas de amputação. Para isso, seriam necessários estudos maiores, multicêntricos e com acompanhamento adequado.

“Portanto, é uma tecnologia brasileira que merece atenção e investimento, mas ainda não substitui aquilo que sabemos que realmente reduz amputação no pé diabético: diagnóstico precoce, avaliação vascular, controle de infecção, desbridamento quando indicado, retirada de carga do pé, controle metabólico e acompanhamento multidisciplinar”, afirma Alberto.

A avaliação reforça que a tecnologia deve ser vista como parte de uma estratégia de cuidado, e não como substituta das medidas já estabelecidas para prevenção e tratamento das complicações do diabetes.

Prevenção começa antes da ferida

Para Alberto, uma das principais mudanças necessárias no cuidado com o paciente diabético é justamente antecipar a intervenção.

“A principal mudança é antecipar o cuidado. Não podemos esperar a ferida aparecer. Precisamos examinar os pés regularmente, identificar neuropatia e alterações vasculares, orientar o paciente sobre autocuidado e garantir controle adequado do diabetes.”

A recomendação está alinhada às diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes, que destacam o rastreamento da neuropatia, a avaliação periódica dos pés e o controle metabólico como medidas importantes para reduzir a morbidade associada às complicações do diabetes.

“Prevenir uma úlcera é muito mais eficaz do que tratar suas complicações”, resume o endocrinologista.

Uma técnica criada há quase duas décadas

Além das tecnologias desenvolvidas para estimular a cicatrização, outras abordagens cirúrgicas também vêm sendo utilizadas no tratamento de feridas complexas. É o caso da Técnica de Figueiredo, desenvolvida em 2008 pelo ortopedista e cirurgião Leandro Figueiredo, do Vitória Apart Hospital.

Como a Técnica de Figueiredo funciona

A técnica parte de um princípio diferente: após o desbridamento cirúrgico, com a retirada dos tecidos contaminados e sem vida, a ferida é coberta por uma lâmina de polipropileno suturada às bordas íntegras. O objetivo é proteger o leito da lesão e manter o exsudato, líquido produzido pelo próprio organismo durante o processo inflamatório e de reparação, em contato com a ferida.

Ortopedista e cirurgião – Leandro Figueiredo

“Os curativos chamados de secundários são realizados somente sobre a prótese, sem contato direto com a ferida e sem contaminação do precioso líquido proteico, produzido pelo nosso organismo, justamente para a sua própria regeneração”, explica Leandro.

Segundo o cirurgião, a preservação do exsudato é um dos fundamentos da técnica. Ele afirma que o líquido armazenado sob a prótese pode favorecer processos relacionados à formação de novos vasos sanguíneos e à regeneração dos tecidos.

Tratamento precoce pode preservar o membro

No caso do pé diabético, Leandro destaca que a abordagem pode ser utilizada diante de feridas profundas e infectadas, inclusive em situações em que já houve destruição de tecidos moles e estruturas ósseas.

“O momento ideal para o tratamento do pé diabético, com a Técnica de Figueiredo, é o mais precocemente possível”, afirma.

O cirurgião ressalta ainda que, mesmo em casos mais avançados, nos quais já ocorreram amputações, a técnica pode ser utilizada com o objetivo de interromper a evolução das lesões e evitar novas perdas de tecido.

Novas pesquisas ampliam os caminhos da medicina

A experiência da Técnica de Figueiredo e o desenvolvimento de tecnologias mais recentes, como o Rapha, mostram diferentes caminhos que a Medicina vem percorrendo na busca por tratamentos mais eficazes para feridas complexas. Embora utilizem abordagens distintas, as iniciativas têm em comum o objetivo de favorecer a cicatrização, preservar o membro e proporcionar mais qualidade de vida aos pacientes.

“Atualmente, com a ampla divulgação da Técnica de Figueiredo e o sucesso obtido por um número cada vez maior de cirurgiões, no mundo inteiro, surgem novas pesquisas baseadas exatamente no armazenamento do exsudato na ferida”, salienta Leandro.

Nesse processo, uma descoberta pode abrir espaço para novas perguntas, pesquisas e possibilidades de tratamento. Mais do que apontar uma única solução, a evolução dessas técnicas amplia o conhecimento sobre a cicatrização e contribui para que novas alternativas possam surgir e, eventualmente, complementar estratégias já utilizadas no cuidado com o pé diabético.

Veja a matéria completa aqui!

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