No ano de 2021, os Estados Unidos enfrentaram uma inflação elevada pela primeira vez em quatro décadas, situação que levou o Federal Reserve a aumentar as taxas de juros em um ritmo acelerado. Cinquenta anos depois, o país lida novamente com um desafio frequentemente associado a economias em desenvolvimento: a dificuldade de financiar sua dívida a longo prazo com custos adequados.
Em agosto, o rendimento dos títulos americanos com vencimento em 30 anos alcançou seu maior patamar desde 2007. Em resposta a essa situação, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, decidiu dobrar o valor do programa de recompra de títulos longos, estipulando um mínimo de US$ 4 bilhões por operação. Embora os títulos de 30 anos inicialmente tenham reagido de maneira positiva, essa reação não se sustentou, e eles perderam os ganhos no dia seguinte, permanecendo estáveis mesmo após os comentários firmes do presidente do Federal Reserve.
A situação permanece desafiadora, e analistas indicam que a próxima medida deverá ser reduzir a emissão de títulos com vencimentos a partir de dez anos, o que pode impactar negativamente os leilões de 20 e 30 anos já a partir de novembro. Segundo Mark Cabana e Meghan Swiber, analistas do Bank of America, essa mudança pode significar um desvio do modelo “regular e previsível” que tem guiado a gestão da dívida dos EUA desde a década de 1980.
A pressão sobre as taxas de juros a longo prazo torna a opção de rolar a dívida pública para prazos mais curtos mais atraente, uma estratégia que deve se expandir. A urgência é evidente: em apenas dez meses deste ano fiscal, os juros da dívida dos EUA atingiram cerca de US$ 1,2 trilhão, um aumento de 15% em relação ao ano anterior.
Os analistas ainda acreditam que a estabilidade nas emissões de títulos a longo prazo é o cenário mais provável, mas qualquer possibilidade de alteração na estrutura da dívida gera inquietação entre os americanos. Títulos com prazos menores exigem menos prêmio, resultando em taxas mais baixas atualmente, mas isso transforma a dívida em um ciclo de rolagens, onde o custo é reavaliado com frequência.
EUA se tornando emergente?
O encurtamento da dívida é uma prática comum em países como o Brasil, onde este fenômeno já avançou consideravelmente. Atualmente, metade da dívida pública federal no Brasil está atrelada à Selic, e o Tesouro Nacional revisou recentemente seu plano de financiamento, prevendo que essa fração chegue a 53% até o final do ano. A dinâmica é distinta, pois no Brasil o encurtamento ocorre devido à indexação e não ao vencimento dos títulos, mas o resultado é semelhante: o governo encontra dificuldades para garantir custos de endividamento por prazos prolongados.
No entanto, as disparidades entre os dois contextos são significativas. Os EUA financiam sua dívida na moeda de reserva internacional e operam o mercado de títulos mais líquido globalmente, características que o Brasil não possui. Além disso, o Merrill Lynch Wealth Management observa que o encurtamento do perfil da dívida não se restringe apenas a economias emergentes. Os analistas ressaltam que o Japão também optou por emissões de curto prazo, reduzindo seu déficit primário ao financiar-se amplamente a taxas de juros próximas de zero, enquanto promove o crescimento do PIB nominal para aumentar a arrecadação.
O Merrill Lynch também relativiza as preocupações em relação ao tamanho da dívida dos EUA, argumentando que o número importante não são os US$ 40 trilhões frequentemente mencionados, mas sim a dívida em poder do público, que gira em torno de US$ 32 trilhões, ou cerca de 100% do PIB, um nível considerado administrável. A instituição ainda minimiza os riscos de uma redução na demanda por Treasuries.
Caminhos têm limites
Apesar da continuidade do plano por parte dos EUA, os ganhos financeiros projetados são limitados. Um corte nos cupons semelhante ao observado em 2021 e 2022 resultaria em uma redução estimada de cerca de 20 pontos-base na taxa de rendimento de 10 anos até o fim de 2028. Em um cenário mais extremo, a eliminação dos títulos de 20 e 30 anos poderia levar a uma diminuição de 53 pontos-base, segundo cálculos do Bank of America. Com isso, o prazo médio da dívida americana poderia cair de 68,8 para 66,7 meses ao final do ano fiscal de 2028, caso os leilões de 20 e 30 anos sejam suprimidos.
Liçõe históricas também aconselham prudência. O Tesouro dos EUA descontinuou os títulos de 20 anos em 1986 e suspendeu os de 30 anos em 2001. Em ambas as situações, a curva de rendimento achatou, mas a taxa de 10 anos não se reduziu de forma duradoura. “A diminuição da oferta de títulos a longo prazo pode gerar um valor de escassez e modificar a configuração da curva, mas a transição para taxas de referência mais baixas é muito menos garantida”, alegam os analistas.
Reducir o estoque de títulos longos não elimina a necessidade de financiamento, uma vez que os vencimentos nos próximos anos podem atingir valores extraordinários, como US$ 323 bilhões já em 2028 – assim, o que se troca é um risco de prazo por um risco de refinanciamento.
Diante disso, há poucas opções disponíveis para o Federal Reserve, especialmente com o temor de que o trade contra o dólar, que ameaçou ressurgir recentemente, se intensifique. Segundo simulações de um professor de Stanford, a saída de investidores estrangeiros dos títulos americanos poderia ter consequências severas: em um cenário onde não houvesse mais demanda estrangeira por ativos em dólar, a moeda americana poderia se desvalorizar em aproximadamente 7,6%, e os rendimentos dos títulos poderiam aumentar ainda mais.



