A inflação, que vinha apresentando surpresas baixistas desde maio, mostrou um movimento oposto em setembro, com o IPCA-15 registrando uma alta de 0,70% na comparação mensal. Essa informação foi divulgada em um boletim da XP, que destacou a análise como uma indicação de que os riscos inflacionários estão se acumulando para 2027, embora a expectativa seja de que o Comitê de Política Monetária (Copom) continue reduzindo a taxa Selic de forma cautelosa em 25 pontos-base nas próximas reuniões.
Os economistas Basiliki Litvac e Alexandre Maluf, responsáveis pela análise, observam que a aceleração da inflação já era prevista, principalmente devido ao fim do crédito do Bônus de Itaipu que impactou as contas de energia elétrica. Além disso, aumentos antecipados em alimentos e serviços de transporte, como passagens aéreas e transporte por aplicativo, superaram as expectativas iniciais. A inflexão na declinação das medidas de inflação subjacente também se mostrou mais acentuada do que o previsto.
Para o IPCA cheio de setembro, os economistas esperam um aumento similar ao da prévia, impulsionado pelo rebote nos preços de energia elétrica, surpresas inflacionárias e um aumento nos preços de alimentos, especialmente in natura, impactados por chuvas acima da média na região Sudeste e variações no preço da carne. Eles alertam que a inflação acumulada em 12 meses deve superar o limite superior da meta no 4º trimestre, e que os preços dos alimentos devem seguir em alta devido a condições climáticas desfavoráveis em meio ao fenômeno El Niño, possivelmente intensificado até o final do ano.
Com o cenário inflacionário em mente, a XP ajustou suas previsões, elevando a projeção do IPCA para 2026 de 5,0% para 5,1%, e para 2027, de 4,2% para 4,4%, levando em conta os riscos que permanecem em alta. Sobre o El Niño, a análise indica que uma intensificação do fenômeno pode afetar a oferta de alimentos de maneira prolongada, criando incertezas sobre o tempo e a magnitude dos aumentos de preços.
Em relação aos combustíveis, uma prolongada instabilidade nos conflitos do Oriente Médio e entre a Rússia e a Ucrânia pode aumentar a diferença entre os preços internacionais e os domésticos. Um reajuste de 10% nos combustíveis nas refinarias poderia resultar em adições de 0,16 p.p. e 0,01 p.p. ao IPCA, respectivamente. Adicionalmente, a implementação de uma nova estrutura do IPCA em janeiro de 2027, baseada na Pesquisa de Orçamentos Familiares, pode elevar o índice em 0,10 a 0,20 p.p.
Os economistas também analisam possíveis mudanças no regime de jornada de trabalho e os impactos iniciais da reforma tributária sobre os preços. Como fatores que podem atenuar a inflação, são mencionados aía do valor do Real, que poderia refletir um ajuste crível da política fiscal, e uma desaceleração acentuada da atividade econômica.
Em termos de decisões de política monetária, a XP antecipa cortes graduais nas taxas de juros nos próximos meses, mesmo diante de sinais adversos. O economista Rodolfo Margato alerta que o fortalecimento recente da taxa de câmbio e as implicações limitadas do choque energético global sobre preços e salários não devem alterar o plano de cortes. A previsão é de que a taxa Selic seja mantida em 13,25% até o fim de 2026 e chegue a 11,50% em 2027.
Margato enfatiza que tanto os fatores domésticos quanto os globais têm um impacto direto nas perspectivas da política monetária em Brasil. A atividade econômica em desaceleração está se tornando evidente, e espera-se que o PIB permaneça estagnado, ou até mesmo se contraia, durante o semestre atual, enquanto um crescimento abaixo do potencial deve ocorrer no próximo ano. Isso contribuirá para um afrouxamento da política monetária.
Por outro lado, a pressão inflacionária está aumentando, evidenciada pelas projeções da XP para 2026 e 2027. O debate eleitoral e seu efeito sobre as reformas fiscais podem gerar diferentes trajetórias nas taxas de juros, especialmente no médio prazo. Caso a dinâmica cambial continue favorável e as expectativas inflacionárias recuem, o Copom poderá optar por agilizar os cortes de juros já na reunião de dezembro, com estimativa de que a inflação atinja 2,9% em 2º trimestre de 2028, caso a taxa de câmbio se mantenha em torno de 5,00 reais por dólar. Uma maior redução nos prêmios de risco poderia ampliar o espaço para cortes de juros ao longo de 2027, caso ocorram medidas robustas de ajuste fiscal.

