A inflação de setembro subiu 0,82%, superando as previsões do mercado e revertendo a deflação do mês anterior, resultando em um acumulado de 12 meses de 4,58%, acima do teto da meta para a inflação, que é de 4,5%. Os dados foram divulgados na sexta-feira, dia 16, pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Os economistas apontam que houve uma deterioração na qualidade do indicador, com uma aceleração nos núcleos da inflação e a persistência de preços elevados nos serviços. Essa situação dividiu a opinião entre analistas sobre os rumos da política monetária, que atualmente apresenta uma tendência de cortes nas taxas de juros.
Enquanto uma parte dos especialistas acredita que os cortes na taxa Selic devam continuar, respaldados pelo alívio do câmbio e sinais de desaceleração econômica, outra corrente ressalta que as pressões inflacionárias demandam uma pausa nesse processo de afrouxamento monetário. As projeções indicam que a inflação de serviços permanecerá resiliente, dada a força do mercado de trabalho, com preços de alimentos permanecendo elevados devido ao fenômeno El Niño, e custos de petróleo próximos a US$ 100 por barril pressionando combustíveis, bens industriais e tarifas aéreas.
Para o Goldman Sachs, os dados atuais oferecem pouco espaço para novos cortes nos juros a curto prazo, sugerindo a necessidade de cautela adicional.
Com relação aos resultados do IPCA, a alta de 0,82% superou as expectativas medianas do mercado, que estimavam cerca de 0,76%. O principal responsável por esse aumento foi o grupo Habitação, que teve uma elevação de 2,31%, principalmente impulsionado pela energia elétrica residencial, que subiu 7,98% após o término do Bônus de Itaipu, que previamente havia reduzido os custos.
Ademais, fatores climáticos como a seca e queimadas, juntamente com os efeitos iniciais do fenômeno El Niño, impactaram a oferta agrícola e aumentaram os preços no setor de Alimentação e Bebidas, que havia enfrentado três meses de queda. Nesse contexto, os preços de alimentos in natura sofreram saltos significativos, com o tomate aumentando 37,76%, seguido da batata-inglesa com 24,07% e a cebola com 10,14%. O setor de combustíveis não ficou imune às pressões, com a gasolina subindo 1,21% e o etanol aumentando 3,16%, contrariando as expectativas de redução.
A preocupação dos economistas, no entanto, vai além de flutuações momentâneas em tarifas e alimentos, voltando-se para a fundação estrutural do IPCA. Os núcleos de inflação, que excluem itens mais voláteis, subiram de 0,23% em agosto para 0,36% em setembro, sinalizando que o processo de desinflação perdeu força.
Em particular, o setor de serviços apresentou uma inflação que saltou de 0,03% para 0,61% no último mês, com um papel significativo da alta de 9,66% nas passagens aéreas e a falta de promoções em ingressos de cinema. A alimentação fora de casa e os serviços que dependem intensamente de mão de obra também se mantiveram em níveis elevados, sinalizando uma resistência à desaceleração.
As decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), a serem tomadas no início de novembro, refletem essa composição desfavorável do IPCA. Uma parte dos analistas agora prevê uma interrupção nos cortes da taxa Selic, que atualmente está fixada em 13,75% ao ano. Algumas estimativas sugerem que não haverá mais reduções de juros neste ano, com a Selic encerrando 2026 no nível atual.
Por sua vez, outros especialistas observam que os choques inflacionários não modificam as projeções de longo prazo da política monetária. Há consenso em relação a uma modesta redução de 0,25 ponto percentual em novembro, levando a Selic para 13,50% ao ano no fim de 2026. Para o longo prazo, existe uma expectativa de continuação da queda da taxa ao longo de 2027, dependente do cenário fiscal do novo governo e do ambiente internacional.
Analistas esperam que a taxa de câmbio, com o dólar perto de R$ 5,00, contribua para aliviar a pressão inflacionária, podendo reduzir em até 0,5 ponto percentual a inflação acumulada, diminuindo os custos de insumos importados. Projeções feitas por economistas apontam uma Selic em torno de 11% a 12% ao final de 2027, um nível considerado crucial para facilitar a reestruturação das dívidas das empresas e promover uma recuperação gradual do crédito.

