Ainda no escuro, Tatiele Dalfior Ferreira inicia seu dia. Após acordar, ela faz suas orações e toma café da manhã tranquilamente, antes de dar início ao trabalho na propriedade da família em Governador Lindenberg. Já revisada, a programação do dia é ajustada para que as atividades possam começar com foco.
Durante as manhãs, ela se depara com questões administrativas e burocráticas. À tarde, a dinâmica muda; Tatiele inspecciona a propriedade, supervisionando as atividades no campo. Essa rotina pertence a uma engenheira química que, desde que deixou o interior para estudar, agora administra a propriedade familiar, que já passa por sua terceira geração.
Aos 37 anos, Tatiele havia construído uma carreira profissional que poderia levá-la para longe de sua cidade natal, no Noroeste do Espírito Santo, e chegou a receber uma proposta para trabalhar no Texas, nos Estados Unidos. Porém, quando sua trajetória parecia estar destinada a levar sua carreira para o exterior, Tatiele decidiu retornar para casa.
Durante a pandemia, sua vida tomou um novo rumo. Ela voltou à propriedade com a intenção de trabalhar remotamente, buscando um ambiente mais tranquilo perto da família. Naquele período de cidades esvaziadas, encontrou no campo não apenas um abrigo, mas a oportunidade de se envolver mais de perto com as atividades da propriedade. A experiência revelou a necessidade de alguém que continuasse os trabalhos, levando-a a perceber que sua volta deveria ser definitiva.
Como parte da terceira geração envolvida na produção de café, Tatiele começou a entender a propriedade não apenas como uma conexão com suas raízes, mas como uma nova oportunidade profissional. Ela afirmou: “Eu sabia que a pessoa para continuar seria eu. O amor pelo campo, pelo meu pai e meu senso de dever como filha, que deveria dar continuidade ao que ele lutou a vida inteira para construir, pesaram na decisão”.
Entretanto, esse retorno não implicou na renúncia à carreira construída ao longo dos anos. Ao contrário, Tatiele incorporou conhecimentos de sua experiência anterior em pesquisa e na indústria ao trabalho rural, reformulando processos como colheita, secagem e controle de qualidade.
Ela explicou: “Os resultados hoje dependem não apenas de mim, mas do trabalho dos meus parceiros e, acima de tudo, de Deus. O campo é uma indústria a céu aberto”. A busca por técnicas modernas de produção levou Tatiele ao cooperativismo. Sua propriedade é associada à Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel), referência na produção de café conilon no Brasil, buscando assim assistência técnica e acesso a tecnologias que impulsionam o negócio.
Tatiele destaca que, no cooperativismo, encontra apoio e segurança, sentindo que não está sozinha na jornada. “É essencial ter quem me ajude no direcionamento do negócio”, ressalta. Além disso, especialistas comentam que as cooperativas oferecem acesso a novos mercados e capacitações essenciais para aumentar a renda e a produtividade.
A diversificação e a inclusão são notáveis na agricultura capixaba. O Censo Cooperativista 2026 indicou que existem 2.846 jovens cooperados na agropecuária, deste total, 573 são mulheres. A inclusão de jovens e mulheres na gestão das propriedades é vista como uma maneira de trazer inovação e criatividade, elementos fundamentais para enfrentar as transformações que chegam ao campo.
Outra engenheira que se destacou na produção de café é Larissa Diirr Bertoli, de 27 anos. Formada em Engenharia de Alimentos, Larissa utiliza suas habilidades para aprimorar a propriedade dos pais, Odair José Bertoli e Alcione Patrícia Diirr Bertoli. Desde pequena, acompanhava o pai na colheita do café, e notava seu empenho, mas se preocupava em ver sua produção se juntar à de outros, sem reconhecimento da qualidade.
Participando de um projeto universitário sobre a qualidade do café conilon, Larissa começou a acreditar que o produto de seu pai também merecia ser valorizado. Depois de muita persistência, ela convenceu a família a produzir um lote experimental, iniciando o investimento em novas técnicas de secagem e processamento em 2021.
No ano seguinte, ao participar de um concurso local, a família alcançou o quinto lugar com a produção. Isso ajudou a impulsionar a comercialização de seu café, resultando em novas participações em feiras, onde puderam validar a qualidade do produto.
Com o nome de Sítio Doce Grão, a propriedade destacou-se pela qualidade adocicada de sua bebida. A mudança na dinâmica familiar também foi significativa, envolvendo todos nas decisões desde o cultivo até a comercialização. Em busca de novos mercados, a família se associou à Cooperativa dos Cafeicultores do Sul do Estado do Espírito Santo (Cafesul), que auxilia nas estratégias de produção sustentável.
A propriedade segue critérios de comércio justo, incorporando práticas agrícolas sustentáveis e o uso crescente de bioinsumos. Investimentos em infraestrutura, como despolpadores e estufas, também foram feitos para aprimorar os processos de pós-colheita.
Dentro da família de Tatiele e Larissa, a capacitação é um valor importante, com todos os membros se dedicando ao aprendizado e à melhoria contínua. Assim, os projetos incluem a modernização do processamento, o uso ampliado de produtos biológicos e a intenção de estabelecer uma área dedicada à produção agroecológica no futuro.

