A recuperação judicial no varejo: uma crise seletiva e não um colapso generalizado
Os pedidos recentes de recuperação judicial pelas empresas Casas Bahia e Marabraz, que enfrentam dívidas de R$ 17,3 bilhões e R$ 140 milhões, respectivamente, têm gerado preocupação no mercado. No entanto, especialistas afirmam que não se trata de um colapso do varejo brasileiro, mas sim de uma crise localizada, afetando setores específicos devido a fatores como altas taxas de juros, dificuldades no crédito e fragilidades administrativas.
Essas solicitações de recuperação têm como objetivo renegociar dívidas sob supervisão judicial, permitindo que as empresas mantenham suas operações enquanto buscam soluções financeiras.
Os dados do IBGE mostram que, em junho de 2026, o comércio varejista viu um aumento de 2,9% nas vendas em comparação com o mesmo período do ano anterior, e a receita nominal subiu 7%. Essa situação revela que o varejo, dividido em três segmentos principais, não está igualmente afetado pela onda de inadimplência e juros elevados.
O setor de giro rápido, que inclui supermercados e farmácias, mostra resiliência, pois possui demanda estável e baixa dependência de crédito. Por outro lado, o varejo digital contínua expandindo sua participação no mercado, sem os encargos financeiros dos estoques e das lojas físicas.
Os maiores problemas estão concentrados no varejo de bens duráveis, que depende fortemente de vendas parceladas e necessários investimentos em lojas físicas. Jéssica Costa, especialista da Agr Consultores, observa que as recuperações judiciais estão concentradas neste segmento específico, o que indica que a crise é direcionada e não abrangente.
Para Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor na ESPM, a atual situação de recuperação judicial no varejo reflete a necessidade intensa de capital. A dinâmica do consumo das famílias mudou, priorizando itens essenciais, enquanto compras de eletrodomésticos e móveis são frequentemente adiadas.
O varejo já enfrentou ciclos econômicos adversos, como a recessão de 2015 e 2016, que fez com que muitas empresas se endividassem para cobrir as perdas. Durante a recuperação entre 2017 e 2019, quando a Selic caiu para mínimos históricos, muitos não focaram na redução da dívida, priorizando apenas a recuperação operacional e investimentos digitais.
Entre 2020 e 2021, a chamada "armadilha do dinheiro barato" se formou, quando a taxa Selic caiu a 2%, facilitando negócios de longo prazo com juros de curto prazo. Agora, com a Selic em 14%, as empresas enfrentam não apenas o aumento dos custos de dívidas, mas também uma queda na demanda.
No caso da Casas Bahia, uma reestruturação financeira em 2024 apenas atrasou a necessidade de uma reestruturação operacional mais robusta. A Marabraz, por sua vez, lidou com questões de governança que dificultaram o refinanciamento de suas dívidas.
Portanto, os pedidos de recuperação judicial não significam o encerramento das atividades empresariais, mas sim uma abordagem para evitar falências e manter a operação das empresas. Segundo um estudo da RGF-BIZDOC, o número de recuperações judiciais no varejo cresceu 20,4% nos últimos 12 meses, embora a taxa de novas entradas esteja desacelerando.
As dificuldades enfrentadas por grandes varejistas impactam diretamente os consumidores, que poderão encontrar critérios de crédito mais rigorosos e menos promoções, resultando em prazos de parcelamento encurtados. Consumidores de baixa renda, que dependem de crédito para aquisição de bens duráveis, serão os mais afetados.
Além disso, cortes de custos internos resultam em redução de serviços adicionais, como entrega e assistência técnica, impactando a experiência do consumidor. Mesmo com os desafios, pedidos de compra já realizados devem ser honrados, conforme estipulado pelo Código de Defesa do Consumidor.
As marcas também enfrentam a chamada "crise de imagem". Um levantamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e da FIA Business School apontou que apenas 4,4% do risco de reputação de uma empresa é explicado por sua saúde financeira, enquanto 95,6% está relacionado a eventos como recuperações judiciais e crises mal geridas.
Dessa forma, o setor varejista demonstra vulnerabilidade, afetando tanto grandes multinacionais quanto pequenas redes regionais.



