Funcionários da Meta revelaram em comunicações internas que restrições afetaram as contas de Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT, no Instagram, e que o perfil de Flávio Bolsonaro, do PL, recebeu recomendação algorítmica na plataforma e também em buscas no WhatsApp. Essa prática está proibida pela legislação eleitoral brasileira. Um dos colaboradores da empresa mencionou que a conta de Lula estava “limitada” em comparação com a de Flávio, o que poderia resultar em implicações legais.
Essa situação se relaciona a um incidente ocorrido em 9 de outubro, quando a conta oficial de Lula ficou sem a capacidade de impulsionar postagens no Instagram por um período de quase 24 horas. Apesar disso, a campanha conseguiu promover conteúdos através de “dark posts”, enquanto os posts antigos continuaram a ser promovidos. No entanto, a conta estava impossibilitada de pagar para incrementar o alcance das postagens no feed, que é a forma mais comum e eficaz de promoção digital.
De acordo com as estimativas da campanha de Lula, aproximadamente 1,3 milhão de pessoas deixaram de visualizar anúncios devido a essa limitação. O impulsionamento é crucial, pois, segundo o TSE, a recomendação algorítmica está proibida para candidatos, e essa é a única forma pela qual políticos podem expandir o alcance de suas mensagens e realizar campanhas eleitorais online. A Meta possui um quase monopólio em publicidade política digital, especialmente após a decisão do Google de suspender a venda de anúncios políticos em 2024.
A incidência de problemas de impulsionamento foi notificada à Meta e discutida nas comunicações internas. A resposta oficial da empresa indicou que um “problema técnico” no gerenciador de anúncios estava em curso. Engenheiros dos EUA foram acionados, mas a solução levou várias horas. Funcionários expressaram preocupação com a lentidão na resolução, evidenciando a urgência da situação dada a relevância da conta de anúncios do presidente da República durante a campanha.
Uma colaboradora da Meta mencionou a necessidade de discutir com a equipe de Lula como explicariam a situação, enquanto outro funcionário relatou que alguns deputados que apoiavam Lula estavam pedindo explicações. A princípio, a justificativa dada pela Meta foi um “data outage” global que afetou mais de 3.000 contas em 7 de outubro, mas esse problema teve um impacto limitado e de curta duração.
Existiu também uma recomendação algorítmica em relação ao perfil de Flávio Bolsonaro durante buscas no WhatsApp, o que contraria as normas do TSE, que estipulam que perfis de candidatos só podem aparecer em buscas com a inserção exata do nome. Nas comunicações da Meta, foi observado que buscas pelo termo “Exército do Lula” levavam a resultados que incluíam o canal de Flávio, enquanto a conta de Lula não aparecia mesmo quando seu nome era buscado corretamente.
No início de outubro, a Meta reconheceu que Flávio estava aparecendo nas recomendações de busca do Instagram, enquanto Lula não aparecia. Funcionários admitiram que a inclusão indevida do perfil de Flávio foi um erro, e embora o problema relacionado ao nome de Lula fosse considerado resolvido, haviam ressalvas sobre variações nos resultados de busca.
Problemas de natureza técnica são habituais entre provedores. Mensagens internas mostraram que, em 23 de setembro, contas de Lula e Flávio foram impedidas de publicar anúncios por cerca de uma hora devido a “atividade suspeita”. Em 1º de outubro, a campanha de Flávio teve anúncios rejeitados por supostas violações relacionadas ao uso de inteligência artificial, mas a equipe alegou que não houve utilização dessa tecnologia.
Os registros internos indicam uma crescente percepção na Meta sobre a narrativa de interferência nas eleições brasileiras, reforçando a ideia de que é importante mostrar que houve ocorrências que afetaram Flávio também.
Em resposta aos questionamentos, a Meta se posicionou afirmando que quaisquer alegações de que ela tenta interferir no processo eleitoral são infundadas. A empresa declarou que os episódios referidos tiveram causas variadas. Destacou ainda que não favorece candidatos ou partidos e que seus sistemas não são projetados para esse tipo de tratamento.
Além disso, nas conversas disponíveis, não existem indicações de uma admissão de interferência, mas sim uma atenção marcada para a gravidade das falhas técnicas e a demora na resolução. Funcionários da Meta também discutiram reações a ordens de bloquear o canal de WhatsApp associado ao deputado André Janones, expressando que políticos de esquerda apresentaram queixas.
A campanha de Flávio Bolsonaro foi consultada sobre os eventos que ocorreram em setembro e outubro, mas afirmou não ter enfrentado problemas que afetassem suas contas ou canais. Ressaltaram que a campanha obedece a todas as normas da plataforma e do TSE, garantindo que a conta do candidato continua a operar normalmente e sem interrupções.
Finalmente, a campanha de Flávio expôs sua opinião em relação à Meta, afirmando que reconhece que a atuação da plataforma pode impactar o alcance de suas comunicações devido às regras eleitorais, mas acredita que esses desafios estão sendo superados com uma avaliação meticulosa e rigor técnico de sua equipe.

