*Artigo redigido por Luana Nandorf, Gerente de Agência Sicredi, Proprietária do Café Nandorf, Membro do IBEF Academy e participante do Comitê Qualificado de Conteúdo de Empreendedorismo e Gestão do Ibef-ES.
Muitas pessoas têm notado que certos produtos acabam mais rapidamente, mesmo que os preços não tenham mudado significativamente. Itens como chocolate, café e refrigerantes parecem ter diminuído em quantidade, mas o preço se mantém quase o mesmo.
Esse fenômeno, em muitos casos, não é apenas uma percepção errônea, mas sim um sinal de reduflação, chamado internacionalmente de shrinkflation. Essa prática envolve a diminuição da quantidade de um produto sem uma redução correspondente no seu preço, gerando uma forma de inflação que é discreta e muitas vezes imperceptível para o consumidor.
O conceito de reduflação é bastante direto. As empresas, ao invés de aumentar o preço de um produto repentinamente — o que pode ser rejeitado pelos consumidores — optam por reduzir o peso, volume ou quantidade, mantendo embalagens que aparentam ser as mesmas.
Por exemplo, um chocolate que antes pesava 200g agora pesa 150g; um refrigerante que tinha 2 litros agora contém 1,25L; o volume do pacote de café diminui, enquanto o preço continua similar ao anterior. O fato é que a maioria dos consumidores se concentra no preço final do produto e não no seu valor proporcional por quilo ou litro.
Por consequência, um chocolate que custava R$ 8 e pesava 200g, agora sendo vendido por R$ 7,50 com 150g, parece mais acessível, enquanto o preço por grama efetivamente aumentou cerca de 25%. Richard Thaler, economista comportamental, menciona em sua obra “Nudge” que “as pessoas nem sempre tomam decisões racionais”, justificando por que mudanças sutis na quantidade costumam não ser percebidas.
Outro ponto técnico a ser considerado é que, para muitas indústrias, os custos associados a embalagem, logística e distribuição não mudam de forma proporcional quando a quantidade do produto é reduzida. Assim, cortar 20% do produto não implica em uma diminuição equivalente de 20% nos custos operacionais.
Em diversos casos, a embalagem permanece quase a mesma, apenas com pequenas mudanças no design interno. O consumidor leva para casa um produto que visualmente permanece familiar, mas com menor conteúdo. O cérebro humano reconhece mudanças de preço maiores de modo mais claro do que alterações proporcionais na quantidade.
Embora a reduflação seja permitida desde que informada adequadamente nas embalagens, ela levanta questões importantes sobre a transparência, o consumo e a educação financeira. Em um contexto econômico marcado por inflação alta, essa abordagem se torna uma estratégia viável para manter as margens de lucro sem causar reações adversas significativas no mercado.
Comparar os preços por quilo ou litro passou a ser uma prática de economia pessoal fundamental e uma forma de proteção financeira no dia a dia. O pesquisador Dan Ariely menciona que “o valor de um produto depende menos do que ele é e mais de como o percebemos”, uma reflexão que se relaciona diretamente com a maneira como embalagens de menor volume podem amenizar a percepção de inflação.
Em síntese, a reduflação oferece um panorama que vai além de uma mera estratégia mercadológica. Ela ilustra como as decisões de compra são afetadas pela percepção visual e pelos hábitos automáticos dos consumidores. Diante de um cenário econômico cada vez mais intrincado, a educação financeira não deve se limitar apenas ao aprendizado sobre investimentos, mas também incluir o desenvolvimento de um olhar crítico diante das pequenas mudanças que silenciosamente impactam o orçamento, além de entender as táticas de mercado que influenciam a mente dos consumidores.
Este artigo representa a visão do autor e não reflete necessariamente a posição do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo, nem da entidade a qual o autor está ligado profissionalmente.

