Um fenômeno de assédio e boicote a trabalhadores e empresários que apoiaram o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está ocorrendo no Espírito Santo, assim como em outros estados brasileiros, após a eleição presidencial realizada no último domingo, dia 25. Pelo menos cinco cidades estão registrando listas que recomendam boicote a estabelecimentos e profissionais identificados como petistas, replicando comportamentos similares ao que já se observou em 2022.
As cidades em questão incluem Afonso Cláudio, Cachoeiro de Itapemirim, Guaçuí, Guarapari e a capital, Vitória. Essa prática tem se mostrado comum entre grupos de extrema direita e recorda as táticas de ostracismo utilizadas pelos nazistas contra judeus na Alemanha no início do século passado.
Um exemplo dessa situação pode ser encontrado em Guaçuí, onde a hamburgueria Maju Roll Burguer, reaberta recentemente por Julio Curty e sua esposa, foi mencionada em uma lista de boicote. Em um desabafo publicado nas redes sociais, Julio declarou que o episódio é uma “lista covarde e criminosa”. Ele enfatizou que sempre manteve discreção sobre suas convicções políticas, atendendo a todos os clientes independentemente de suas opiniões, e ressaltou o apoio que recebeu após o ataque.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) da Seção Espírito Santo manifestou repúdio à lista que circula em Guaçuí, ressaltando que a democracia garante o respeito à diversidade de ideias e à liberdade de cada cidadão em exercer suas preferências políticas sem sofrer constrangimentos.
Em Vitória, Luis Guidoni, proprietário da marca de roupas Amabilis, registrou sua indignação em um vídeo, informando que foi incluído em uma lista, apesar de não ter qualquer ligação política. Ele criticou a forma como algumas pessoas estão tentando rotular a sua empresa como comunista, afirmando que tal categorizações são infundadas e sem sentido.
Cachoeiro de Itapemirim também não ficou de fora, com a Catedral de São Pedro e a Rádio Diocesana, associada à Igreja Católica, sendo alvo de boicote. O arcebispo local, Dom Luiz Fernando Lisboa, integrou uma carta de bispos brasileiros que se opuseram à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).
Outro caso notável é o do advogado Lucas Neto, que foi identificado em uma lista de Guarapari. Ele condenou a criação e a divulgação dessas listas, considerando-as passíveis de múltiplos crimes, por infringirem direitos e causarem danos deliberados a profissionais e negócios. Segundo ele, a ameaça de falência de um negócio devido a uma orientação política se classifica como uma violação da lei.
A situação de assédio no ambiente de trabalho também é motivo de preocupação. O Sindicato dos Trabalhadores em Drogarias, Farmácias e Distribuidoras de Produtos Farmacêuticos e Hospitalares do Estado já está atenta a possíveis perseguições, e informou que o Ministério Público do Trabalho (MPT-ES) recebeu 47 denúncias de assédio eleitoral até o dia 27 de outubro de 2026, um aumento significativo em relação aos dados dos anos anteriores.
Adériton Alcântara, presidente do sindicato, afirmou que demitir ou não contratar alguém com base em sua posição política pode ser classificado como discriminação e violação de direitos previstos na Constituição.
Além disso, o fotógrafo Rafael Duarte, de Cachoeiro de Itapemirim, está sob a supervisão do MPT devido a postagens controversas nas redes sociais. Em uma delas, ele incentivava a demissão de funcionários e colaboradores que fossem identificados como petistas, alegando que suas escolhas políticas prejudicavam os negócios dos outros. Essa afirmação foi tema de críticas em grupos de apoiadores de Lula na cidade.
Por fim, Bertony Fagundes, criador de conteúdo, também causou repercussão ao compartilhar uma lista de “estabelecimentos de direita” em Cachoeiro, afirmando que estava atendendo a solicitações, enquanto anteriormente negou ser autor da lista de “estabelecimentos petistas” que circula localmente.

