No Bar do Zé, situado em Gurigica, o ambiente revelava uma intensidade semelhante ao calor do asfalto durante o pico do meio-dia. Tércio, conhecido como “Careca”, e Waldir Carolo, vizinhos de longa data, se envolveram em um acalorado debate sobre o segundo turno das eleições presidenciais. O proprietário do bar, percebendo a importância da conversa, decidiu oferecer a famosa “amarelinha”, uma cachaça envelhecida, que promete curar desde pequenos desconfortos a problemas maiores.
Carolo, trajando uma camiseta do sindicato, expressou sua indignação sobre o candidato que Careca apoiava, argumentando que ele era sustentado por elites que, segundo ele, estariam entregando riquezas nacionais a interesses estrangeiros. Em sua fala, Carolo destacou a conexão do candidato com figuras controversas da sociedade e denunciou planos que, segundo ele, prejudicariam a população.
Por outro lado, Careca defendia seu candidato, enfatizando a importância de um governo que, em sua visão, promoveria o progresso e a liberdade econômica. Ele levantou bandeiras do Brasil e de outros países em uma demonstração de patriotismo e otimismo sobre o futuro, assegurando que seu candidato acabaria com a dependência do governo e promoveria a auto-suficiência.
As discordâncias entre os dois se intensificaram, culminando em uma troca acirrada de argumentos. Carolo, por sua vez, apontou Contradições na visão de Careca e lembrou de benefícios sociais que ele próprio desfrutava, como o SUS e programas de assistência estudantil que, segundo Carolo, foram frutos de políticas de cuidado e ajuda ao cidadão.
Careca, se defendendo, afirmava que a política do seu candidato traria prosperidade e que a crítica à sua visão era uma demonstração de falta de compreensão sobre a economia. A conversa se desenrolou com intenso humor e sarcasmo, refletindo a incredulidade de Carolo em relação às crenças de Careca.
Após um longo debate, ambos os amigos se levantaram e dividiram a conta, que, de maneira justa, foi paga igualmente, apesar das diferentes opiniões. Saíram do bar e, sob o céu estrelado de Gurigica, levaram suas bicicletas de volta para casa, cada um absorto em suas próprias ideias e convicções. Careca se questionava sobre o futuro, imaginando um mundo com drones e liberdade econômica, enquanto Carolo refletia sobre a aparente inconsistência de seu vizinho em defender tanto o interesse alheio. Ao se despedirem, ambos guardaram suas convicções e a certeza de que o outro necessitava de uma mudança de perspectiva.
Rubem Roschel é jornalista e cronista.

