Hugo Motta conta com o apoio de 70% da nova Câmara, enquanto série de disputas no Senado expõe divisões dentro da direita
As eleições para a presidência da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, agendadas para 1º de fevereiro de 2027, começam a esboçar o novo cenário político que impactará o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Apesar de serem votações internas entre parlamentares, seus resultados influenciarão diretamente na governabilidade, na agenda de direitos sociais e nas interações entre os Poderes.
Na Câmara, o atual presidente, Hugo Motta (Republicanos-PB), se destaca por sua articulação política robusta, reunindo o apoio expresso de 15 partidos que elegeram 361 dos 513 deputados, o que representa aproximadamente 70,4% da Casa. Essa aliança inclui a esquerda, partidos centristas e o Centrão, superando os 257 votos necessários para garantir uma vitória no primeiro turno.
Contudo, esse apoio não garante a adesão automática dos parlamentares. Com a votação sendo secreta, acordos partidários não garantem fidelidade individual, especialmente diante das negociações em torno da distribuição de cargos na Mesa Diretora e na liderança das comissões permanentes.
A oficialização da federação PT-PCdoB-PV em apoio à reeleição de Motta, feita em 27 de outubro, foi uma manobra política significativa. Com 88 deputados, a federação justificou sua decisão para garantir condições políticas favoráveis ao novo mandato de Lula e evitar que o PL assumisse a presidência da Casa.
Entretanto, essa escolha não está isenta de contradições. Ao se unir a partidos do Centrão, a esquerda expande suas opções de negociação, mas também deve enfrentar o desafio de não permitir que a busca por governabilidade se torne uma concessão a interesses conservadores.
O verdadeiro teste será a capacidade de transformar esse acordo político em avanços concretos para a população, especialmente nas áreas trabalhistas, na redução das desigualdades sociais, na defesa dos serviços públicos e na ampliação de direitos.
PL pode lançar candidatura própria
Uma das principais incógnitas na Câmara é o PL, que conta com a maior bancada, composta por 121 deputados. O partido ainda considera se apoiará a candidatura de Motta ou se apresentará um candidato próprio, numa decisão que envolvem também a participação na Mesa Diretora e nas comissões.
Essa divergência reflete a distância entre o presidente da Câmara e o bolsonarismo, uma vez que Motta apoiou Lula na eleição, enquanto o PL foi alinhado à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Entre os possíveis candidatos para enfrentar Motta estão Adriana Ventura, Luiz Lima e Jeffrey Chiquini, pelo Novo, que já informou que terá um candidato próprio. No PL, as alternativas incluem Altineu Côrtes, Luiz Philippe de Orleans e Bragança, assim como a possibilidade de uma candidatura avulsa de Zé Trovão.
Bancada capixaba: oito partidos apoiam Motta
A bancada do Espírito Santo, que tomará posse em fevereiro de 2027, é composta por representantes de sete partidos, mas tende a se alinhar com as articulações nacionais. Os deputados do PT, Jack Rocha e João Coser, são parte do grupo que apoia Hugo Motta. Essa orientação se estende a Manu, do PSB, Gilson Daniel, do Podemos, Da Vitória, do PP, Dr. Bruno Resende e Marcelo Santos, do União Brasil, e Coronel Ramalho, do Republicanos.
Por outro lado, Lucas Polese e Lucas, o Federal da Direita, do PL, permanecem fora desse apoio, aguardando a definição do partido sobre uma candidatura própria ou uma possível aliança com o atual presidente. Assim, oito dos dez deputados capixabas estão em legendas que integram a articulação favorável a Motta, embora isso não garanta unanimidade nos votos.
A posição dos parlamentares do Espírito Santo será crucial na negociação da representação do Estado na Câmara. A participação em comissões estratégicas, especialmente as que tratam de infraestrutura, orçamento, saúde, educação e desenvolvimento regional, influenciará a capacidade do Estado em impactar decisões a nível nacional.
No Senado, a trajetória é diferente. A reeleição de Davi Alcolumbre (União-AP) enfrenta a candidatura de Rogério Marinho (PL-RN), formalmente lançada pelo PL em 4 de novembro, além da movimentação da senadora Tereza Cristina (PP-MS), que também deseja concorrer à presidência da Casa.
Alcolumbre recebeu manifestações de apoio do PT, MDB e PSD, além do endosse oficial da federação União Progressista, formada por União Brasil e PP. O PSB também anunciou intenção de formalizar apoio à reeleição do atual presidente.
Esse grupo, em teoria, abarca 33 dos 81 senadores. Marinho conta com os 29 senadores do PL e os três do Novo, mas necessita expandir sua base para atingir os 41 votos necessários para vencer.
Assim, Marinho representa uma tentativa do PL e dos bolsonaristas de assumir o controle da Casa. Entre suas propostas estão a anistia aos condenados pelos eventos de 8 de janeiro e a abertura de processos contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
A disputa vai além da escolha do presidente. A liderança do Senado possibilita o controle da pauta de votações e impacta diretamente na apreciação de pedidos de impeachment dos ministros do STF.
Os três votos do Espírito Santo
A representação do Espírito Santo no Senado é composta de uma forma peculiar. Além de Renato Casagrande (PSB) e Evair de Melo (Republicanos), que foram eleitos em outubro para mandatos de oito anos, o Estado continua sendo representado por Magno Malta (PL), cujo mandato se estende até 2031.
Casagrande tem a tendência de apoiar Alcolumbre, seguindo a orientação do PSB em nível nacional. A direção do partido anunciou, após reuniões com o atual presidente do Senado, que formalizará apoio à reeleição do parlamentar. Assim, Casagrande se alinha a esse movimento.
Evair de Melo, por sua vez, chegou ao Senado pelo Republicanos, partido de Hugo Motta, mas ainda não há uma posição coletiva confirmada para apoiar Alcolumbre na disputa da Casa. A decisão individual de Evair quanto ao seu voto permanece indefinida, sendo importante o seu posicionamento, que dependerá de suas relações políticas dentro do campo conservador.
Magno Malta, representando o PL, se insere no grupo que apoia Marinho, o que o coloca em um contexto oposto ao de Casagrande. Esse cenário revela uma clara divisão entre os representantes do Estado. Enquanto Casagrande se posiciona ao lado de Alcolumbre, Magno Malta alinha-se a Marinho, com Evair ainda sem um posicionamento claro.
Tereza Cristina divide a direita
A candidatura de Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura no governo Bolsonaro, traz um novo elemento de incerteza à disputa. Ela busca apoio entre parlamentares do agronegócio, do Centrão e da bancada feminina, se apresentando como uma alternativa ao atual presidente e ao candidato do PL.
A senadora, embora filiadas ao PP, que já declarou apoio a Alcolumbre, mantém sua candidatura e defende a liberdade de voto de cada parlamentar. Tereza Cristina almeja ser a primeira mulher a presidir o Senado.
Marinho e Tereza já discutiram sobre a possibilidade de uma candidatura única contra Alcolumbre, mas sem chegar a um consenso final. As negociações devem continuar até fevereiro.
A diferença entre as duas disputas evidencia estratégias distintas. Na Câmara, a esquerda busca uma ampla coalizão, incluindo o Centrão, para evitar que o PL assuma a presidência e criar condições para avançar na agenda governamental.
No Senado, o governo pretende manter um diálogo com Alcolumbre, enquanto a oposição aspira a ganhar terreno para seguir com pautas que envolvem anistia e impeachments de ministros do STF. A vitória de Marinho reconfiguraria o cenário político no Senado, abrindo novas possibilidades de disputas institucionais.
As presidências das duas Casas detêm poder significativo para determinar o tempo de tramitação dos projetos, organizar a agenda legislativa e mediar negociações que impactam diretamente a vida dos cidadãos. Temas como a revogação da escala 6×1, proteção dos direitos trabalhistas, políticas sociais e a distribuição de recursos públicos dependem, em parte, da ação política de quem ocupa essas posições.
Para o Espírito Santo, essa eleição traz uma consequência adicional: a habilidade da sua representação parlamentar atuar de modo articulado em Brasília, apesar das divergências partidárias. Fevereiro servirá como um teste sobre como os deputados capixabas se posicionarão diante das principais questões políticas e sociais do país.

