O Uruguai, um dos últimos governos de esquerda na América Latina, se destaca em um cenário regional marcado por um deslocamento político para a direita. O país ocupa agora funções importantes que permitem uma observação mais atenta dos desafios de integração da região, estando à frente da presidência temporária do Mercosul e liderando a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).
Durante a Assembleia Geral da ONU, realizada em setembro em Nova York, o chanceler uruguaio, Mario Lubetkin, discutiu o atual panorama da região, a influência dos Estados Unidos e as próximas eleições no Brasil. Lubetkin, ministro do governo de Yamandú Orsi e discípulo político de Pepe Mujica, defende que as colaborações no combate ao crime organizado devem priorizar a unidade entre os países da região. Tanto o Brasil quanto o Uruguai não foram convidados a participar do Escudo das Américas, uma iniciativa dos Estados Unidos.
Em relação à Venezuela, Lubetkin afirma que não há perspectiva de restabelecimento das relações diplomáticas enquanto Delcy Rodríguez permanecer no poder, considerando-a tão ilegítima quanto Nicolás Maduro. Sobre as eleições no Brasil, ele observa que a possibilidade de interferência externa é uma preocupação real, reforçando a necessidade de vigilância. Em relação a Flávio Bolsonaro, o principal adversário de Lula, Lubetkin acredita que o senador perceberia, uma vez no cargo, a impraticabilidade de algumas declarações feitas durante a campanha, como o desejo de abandonar o Mercosul.
Ao abordar o estado do diálogo e da integração na América Latina, o chanceler ressalta que o Uruguai mantém relações muito boas com todos os governos do continente. Ele menciona a presidência da Celac, onde todos os países participantes reafirmaram a importância de seguir com as atividades da organização. O país também firmou um plano de ação entre a Índia e a América Latina e organizou encontros com a União Africana e a União Europeia, com o objetivo de promover uma cúpula presidencial no próximo ano.
Lubetkin questiona a narrativa de polarização, afirmando que essa não impediria o funcionamento de organizações como a Celac, que reúne diferentes países diante de problemas comuns, como segurança e estabilidade socioeconômica. Ele também indicou que, apesar de não ter sido convidado para o Escudo das Américas, o Uruguai participa do Compromisso de Santiago, que visa discutir questões de segurança na região com outros países.
Sobre a atuação dos Estados Unidos na América Latina, Lubetkin prefere focar nas ações que o Uruguai deve implementar. Ele critica a falta de clareza da estratégia norte-americana no combate ao narcotráfico e enfatiza a necessidade de colaboração regional para resolver questões complexas. Em relação à participação do Brasil no Compromisso de Santiago, ele defende que esse processo deve incluir todos os países sul-americanos, embora cada um tenha sua própria decisão a tomar.
Ele expressou esperança de que as eleições brasileiras sejam realizadas de forma transparente e democrática, manifestando a expectativa de trabalhar com o vencedor, independentemente de quem seja. No que se refere a riscos de interferência externa, Lubetkin pede atenção especial, uma vez que isso já aconteceu em outras nações.
Sobre as declarações de Flávio Bolsonaro em relação ao Mercosul, o chanceler considerou que a saída do Brasil do bloco não é simples, devido a acordos interligados que criariam impactos significativos para a economia nacional. Ele acredita que, se Bolsonaro assumir a presidência, poderá perceber a impraticabilidade de certas afirmações de campanha.
Lubetkin também reafirmou que as relações diplomáticas com a Venezuela não serão retomadas até que haja uma mudança de poder reconhecida, destacando a urgência de eleições democráticas no país. Com relação a Cuba, ele expressou preocupação com a situação atual e defendeu a importância de diálogos, tanto com os Estados Unidos quanto internamente.
Já sobre o acordo Mercosul-União Europeia, Lubetkin afirmou que está em vigor com benefícios diretos já perceptíveis, apesar de discussões legais em andamento. Ele mencionou que o Uruguai já colheu benefícios significativos do acordo e espera um progresso contínuo no comércio.
Em resumo, Mario Lubetkin, atual ministro de Relações Exteriores do Uruguai, destacou a importância da integração regional e o foco do país em questões de segurança e comércio, além de expressar esperanças em eleições democráticas no Brasil e reiterar a necessidade de diálogo nas relações internacionais.

