AdvertismentGoogle search engineGoogle search engine
segunda-feira, agosto 24, 2026
InícioNotíciasDependência Digital em Idosos: O Vício Silencioso

Dependência Digital em Idosos: O Vício Silencioso

Para aqueles acima dos 60 anos, é comum afirmar que as crianças estão obcecadas pelos celulares. Essa preocupação pode ser válida, uma vez que durante anos se acreditou que a infância fosse a principal afetada pelos algoritmos.

Discutimos frequentemente o tempo de uso das telas pelos adolescentes, os perigos das redes sociais e consideramos a dependência digital como um dos principais tópicos relacionados à saúde mental. Contudo, uma questão pouco levantada é: e quanto a você?

De acordo com a PNAD Contínua do IBGE, a porcentagem de brasileiros com 60 anos ou mais que possuem celular para uso pessoal aumentou de 66,6% em 2019 para 78,1% em 2024, a maior elevação entre as faixas etárias analisadas. Estar conectado é um avanço e não um sinal de problema.

Entretanto, o uso excessivo do celular tem sido vinculado a noites mal dormidas, a sintomas de depressão e ao sedentarismo.

Foi em meu consultório que percebi como essa discussão ganhou vida. Tenho atendido idosos que chegam exaustos, desmotivados e com dificuldades para dormir. Uma observação recorrente é que o celular passou a ocupar suas noites.

Estão indo para a cama mais tarde, acordando mais cansados e, sem perceberem, caminhando menos, lendo com menos frequência, socializando menos e saindo menos de casa. O celular não apenas tomou tempo, ele reestruturou a rotina.

A dependência em relação aos dispositivos digitais praticamente nunca começa com a perda total de controle. O início ocorre quando o excesso começa a parecer normal. Ninguém se espanta ao dormir meia hora a mais. Depois, uma hora. Logo, duas. É difícil perceber o dia em que a caminhada é substituída pelo sofá, a conversa se torna trocas de mensagens rápidas ou a curiosidade é substituída pela rolagem interminável de conteúdos.

O problema não está apenas no tempo que as telas demandam, mas em tudo que silenciosamente está sendo retirado da vida das pessoas.

Uma frase que escuto frequentemente em meu consultório é: “Trabalhei a vida toda. Agora mereço fazer o que quiser.” Concordo, a aposentadoria deveria representar um retorno à liberdade. No entanto, pode também ocultar um perigo. Quando alguém afirma que o momento mais prazeroso do dia é passado nas telas, eu deixo de me perguntar o que há de sedutor nelas e começo a me questionar o que está desaparecendo da vida dessa pessoa.

Os aplicativos sabem como aproveitar uma vulnerabilidade humana antiga: preferimos atividades que requerem pouco esforço e oferecem recompensas rápidas. Eles não apenas competem por nossa atenção, mas também por hábitos, rotinas e, essencialmente, pelo nosso tempo — a verdadeira essência da vida.

O que os exames não mostram

Quando a tristeza surge, é natural buscar uma explicação física. Exame de hormônios, verificação de vitaminas e consideração de medicações são comuns. Tudo isso é relevante, mas a rotina não pode ser negligenciada.

Um exame de sangue não consegue indicar quantas horas de sono foram sacrificadas para o uso do celular, quantos passos foram evitados ou quantos encontros foram adiados. Portanto, algumas questões devem ser incluídas nas consultas: como estão suas noites de sono? Quanto tempo do dia é tomado pelo celular? O que ele está substituindo? Existem formas de adoecimento que não têm origem em substâncias, mas no empobrecimento que ocorre silenciosamente na vida cotidiana.

O envelhecimento sempre demandou cuidados que suportem a vida além da mera ausência de doenças: dormir bem, praticar atividades físicas, socializar, manter a mente alerta e cultivar a curiosidade. Atualmente, é fundamental incluir mais um cuidado: proteger a atenção. Não se trata de condenar o celular ou esquecer a conquista de estar conectado.

O objetivo é evitar que uma ferramenta desenvolvida para expandir nossos horizontes acabe por limitá-los. A nova epidemia entre os idosos não é a solidão, mas uma forma sutil de isolamento: estar cercado por mensagens, vídeos e notícias, mas cada vez mais afastado do próprio corpo, das interações sociais e da vida que ocorre fora das telas.

Quando o celular toma o lugar do sono, do movimento e do desejo, ele deixa de ser uma companhia — torna apenas a ausência mais tolerável e, por isso, menos visível. Nenhuma fase da vida deve ser entregue a um algoritmo, especialmente aquela em que o tempo não é mais percebido como um recurso infinito, revelando, em verdade, seu verdadeiro valor.

Artigos Relacionados

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

MAIS LIDOS

Recent Comments