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segunda-feira, agosto 24, 2026
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Galípolo: Não é possível celebrar a expansão do crédito e ao mesmo tempo lamentar o endividamento

Gabriel Galípolo, presidente do Central, identificou a concessão de crédito por instituições financeiras e a falta de conscientização no uso de produtos financeiros como os principais fatores do elevado endividamento das famílias brasileiras. Ele ressaltou que a ampliação da inclusão bancária, especialmente entre os brasileiros de menor renda, foi intensificada durante a pandemia, com a popularização do Pix.

“É fundamental fazer algumas observações que podem parecer óbvias. Não é possível comemorar o crescimento do crédito e depois se preocupar com o aumento do endividamento. O crédito que um banco concede se traduz na dívida de quem o toma. O endividamento, em sua essência, é resultado dessa dívida”, afirmou o banqueiro central na abertura da Febraban Tech 2026, em São Paulo, nesta segunda-feira, 24.

Em maio de 2026, a renda disponível das famílias atingiu R$ 822 bilhões, atingindo o maior patamar histórico, enquanto a taxa de desemprego caiu para 5,4%, próxima da menor já registrada no Brasil. Apesar disso, o endividamento das famílias alcançou 49,8% da renda anual em 2026, enquanto o indicador que desconsidera o crédito imobiliário subiu para 31,1%, um quadro “dissonante”, conforme mencionou Galípolo.

Galípolo explicou que o Brasil experimentou um aumento sem precedentes na inclusão bancária, especialmente entre as classes de baixa renda, culminando em uma significativa expansão do crédito, muitas vezes por meio do uso inadequado dos serviços financeiros.

Ele enfatizou a relevância da inclusão financeira e destacou que, após sua concretização, é essencial promover o uso responsável dos produtos financeiros. “As pessoas precisam conhecer as melhores opções e saber como utilizar esses serviços de forma adequada”, comentou.

Para combater esses desafios, Galípolo informou que os esforços do Banco Central estão focados na regulação do ambiente competitivo entre as instituições financeiras. Isso visa garantir que as empresas possam diferenciar, de maneira acurada, o que representa prêmio ou risco em suas carteiras de crédito. “É primordial equilibrar as condições de mercado para que não haja instituições se beneficiando de práticas que desrespeitam princípios de governança, o que pode prejudicar a saúde financeira geral”, disse.

Galípolo também enfatizou que nem todo endividamento é prejudicial. Ele diferencia o endividamento relacionado à aquisição de ativos do ligado ao consumo imediato. “Quando alguém financia um imóvel, está criando um ativo. O verdadeiro problema é acumular dívidas por consumo que não traz retorno”, explicou.

Os maiores receios do Banco Central estão associados às modalidades de crédito sem garantias. O presidente do BC apontou o cartão de crédito como uma das formas mais preocupantes de endividamento, com 96 milhões de usuários no Brasil, dos quais mais da metade, ou 52,8 milhões, possui dívidas sujeitas a juros, seja no rotativo ou no parcelamento.

Em média, 54% da renda desses consumidores já está comprometida com gastos no cartão. Os juros para essa operação permanecem altos: a taxa média do rotativo atinge 15,1% ao mês, enquanto os juros do parcelamento estão em 9,3% ao mês.

Além do cartão, Galípolo mencionou que os produtos de crédito livre, como consignado privado e crédito pessoal não consignado, também impulsionam a taxa de endividamento. O crédito consignado privado cresceu 145% em um ano, atingindo R$ 102 bilhões, enquanto o crédito pessoal não consignado avançou 188% desde 2020, totalizando R$ 397,2 bilhões. Entre 2020 e 2024, houve uma expansão anual de 20%, que diminuiu para 10,5% entre 2025 e 2026.

As taxas de juros para crédito pessoal sem garantias alcançam 149,5% ao ano. No consignado privado, a taxa média aumentou de 40,9% para 57% ao ano entre fevereiro de 2025 e março de 2026.

“Essa situação dissonante se torna compreensível ao observar o crescimento da renda, a queda do desemprego e o aumento do endividamento, com elevação na inadimplência”, concluiu Galípolo.

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