Apesar das distúrbios provocados pelo conflito no Oriente Médio, o comércio global demonstrou uma resiliência maior do que o previsto no primeiro semestre de 2026. A Organização Mundial do Comércio (OMC) divulgou um relatório nesta quinta-feira (8) que aponta essa tendência, atribuindo parte da robustez ao investimentode peso em inteligência artificial, que impulsionou consideravelmente o comércio de produtos essenciais.
Entretanto, a OMC adverte que essa resiliência não se manifestou de maneira uniforme. O comércio de serviços apresenta dificuldades e algumas regiões estão mais impactadas pelos efeitos do conflito entre Estados Unidos e Irã. De acordo com a OMC, a estimativa de crescimento do comércio de mercadorias para 2026 foi elevada de 1,9% em março para 3,9%. Para 2027, o aumento projetado é de 4,1%.
A OMC ressalta que essa atualização reflete a adaptação das cadeias de suprimentos frente às perturbações nos mercados de energia e fertilizantes, além do significativo investimento em infraestrutura relacionada à inteligência artificial. Apesar de se esperar que o comércio de serviços continue a avançar, sua perspectiva foi ajustada para baixo em função dos impactos do conflito, especialmente sobre transporte e turismo. O comércio de serviços deve crescer 3,3% em 2026, uma redução em relação à previsão anterior de 4,8%, antes de se recuperar para 6,4% no ano seguinte.
Segundo Ngozi Okonjo-Iweala, diretora-geral da OMC, os dados divulgados evidenciam a resiliência das trocas comerciais. Ela afirma que uma economia global interconectada e um sistema comercial baseado em normas proporcionam a flexibilidade necessária para que produtos essenciais cheguem a empresas e famílias que dependem deles. Contudo, enfatizou que nem todos os países têm as mesmas oportunidades, especialmente em relação a inovações como a inteligência artificial, tornando necessário garantir que as regras comerciais continuem a evoluir para atender a todos.
O crescimento do comércio de mercadorias no primeiro semestre de 2026 foi de 3,5%, superando expectativas, impulsionado pela capacidade das cadeias de suprimentos de se ajustarem a diversas intervenções. Embora as exportações de petróleo bruto do Oriente Médio tenham caído cerca de 24% e as de gás natural liquefeito tenham registrado queda de 47%, o aumento nas remessas de outros fornecedores ajudou a reduzir o declínio das exportações globais para aproximadamente 6% no petróleo bruto e apenas 1% no gás. O mercado de fertilizantes também se mostrou adaptável, com as importações globais de nitrogenados apenas 2,8% abaixo das médias recentes.
Além disso, os fluxos comerciais foram redirecionados para portos e rotas alternativas. O movimento global de contêineres manteve-se forte, subindo 3,9% no acumulado do ano até julho. A demanda por produtos relacionados à inteligência artificial foi um motor significativo, representando 47% do crescimento do comércio de mercadorias no primeiro semestre de 2026, com um aumento de 67% em comparação ao ano anterior.
Para 2026, os investimentos em infraestrutura relacionada à inteligência artificial devem crescer pelo menos 30%, e as projeções indicam uma alta contínua nos investimentos em torno de 10% a 20% em 2027. No entanto, o conflito no Oriente Médio ainda deverá influenciar o comércio devido a aumentos nos preços de energia e perturbações nos transportes.
As expectativas regionais quanto ao comércio são desiguais. A Ásia deverá ter o crescimento mais acelerado das exportações de mercadorias, estimado em 9,9%, seguida pela América do Norte (5,7%), África (5,6%) e América do Sul (3,4%). Em contraste, a Europa poderá registrar um leve recuo de 0,1% nas exportações, enquanto a Comunidade de Estados Independentes (CEI) deve experimentar uma contração de 3,9% e o Oriente Médio uma queda de 17,2%.
Nas importações, a Ásia (9,5%), África (8,9%) e CEI (8,8%) apresentarão os maiores crescimentos, enquanto América do Norte (1,4%) e Europa (0,5%) deverão ter aumentos modestos, com o Oriente Médio tendo uma queda acentuada de 15,4%.
As previsões para o comércio de serviços enfraqueceram desde a última atualização, em março, devido aos efeitos contínuos do conflito que impactam os serviços de transporte e viagens. O volume do comércio de serviços deverá crescer 3,3% em 2026, antes de recuperar-se para 6,4% em 2027, com o setor de transporte e turismo aguardando um crescimento modesto, afetado pelo aumento dos custos de energia e interrupções nas rotas. Enquanto isso, os serviços digitais devem continuar a apresentar um desempenho sólido, ajudando a sustentar o crescimento geral do comércio de serviços.

