A cambojana So Raksa, de 26 anos, estava celebrando seu recente casamento em casa, rodeada por familiares e amigos, quando uma operação policial nas proximidades causou agitação. O evento, que ocorreu em um condomínio a apenas 200 metros de seu lar, na cidade de Poipet, no Camboja, a surpreendeu. “Foi um choque, havia muitas pessoas”, relatou.
Na ocasião, homens e mulheres de diferentes nacionalidades saíram em disparada de um local caracterizado por ser um centro de fraudes, onde quadrilhas mantinham indivíduos enganados com promessas de emprego bem remunerado, apenas para se verem sujeitos ao tráfico humano e forçados a praticar golpes eletrônicos.
A mãe de So, Hoeung Heab, de 44 anos, observou marcas de violência nas pessoas que conseguiram escapar. “Alguns tinham hematomas, com braços e pernas machucados”, contou, revelando que já havia visitado o local para levar água, uma importante fonte de renda para sua família. “Os chefes eram brutais e espancavam as vítimas dentro do lugar.”
Os prédios mencionados anteriormente já tinham atraído brasileiros. João (nome fictício), de 25 anos, relatou que passou algumas horas no local antes de ser transferido para outro complexo, onde foi atraído por uma oferta de emprego que prometia US$ 4.000 (aproximadamente R$ 20 mil) por 12 horas de trabalho, com folgas aos domingos e um contrato de um ano.
Situada na fronteira com a Tailândia, Poipet é reconhecida por autoridades e organizações internacionais como um centro de tráfico de pessoas no Camboja. Em 2025, o país registrou o maior número de vítimas brasileiras atendidas pelo Protocolo Operativo Padrão, segundo um relatório do Ministério da Justiça. Dos 84 casos registrados, 44 foram no Camboja, representando um aumento de 33% em relação ao ano anterior, que teve 63 ocorrências. Em 2024, sendo o primeiro ano com coleta de dados sob o protocolo, não há comparações com épocas anteriores.
A pasta observou que os números são, na verdade, subnotificados, já que nem todas as vítimas recorrem aos serviços públicos. O trabalho escravo foi a principal motivação dos crimes registrados, com 49 casos envolvendo pessoas que atuavam sob essas condições no Camboja.
Paulo (nome fictício) chegou ao Camboja via vôo para Bancoc, na Tailândia. Após ser levado para Poipet em um carro, ele trabalhou lá por três meses, sem estar diretamente envolvido com a aplicação de golpes, mas logo pediu para sair. “Fui ameaçado com prisão e minha família também foi ameaçada”, relatou. O chefe informou a ele que deveria executar as tarefas que lhe fossem determinadas, que inevitavelmente incorporavam golpes.
Outros brasileiros entrevistados em anonimato por organizações como a The Exodus Road e a Anistia Internacional relataram terem sido atraídos pelo promessas de salários em dólar, alojamento e benefícios, mas ao chegarem, se viram forçados a aplicar golpes online sob a ameaça de violência.
O cotidiano das vítimas era repleto de vigilância rigorosa e intimidação. Punições severas aguardavam aqueles que se negavam a colaborar, tentavam contatar autoridades ou cujos desempenhos não eram satisfatórios. Quando isso ocorria, os gerentes impunham humilhações públicas e agressões físicas.
Ao desembarcar, os passaportes eram retidos sob a justificativa de que a empresa cuidaria do visto de trabalho, mas os documentos nunca eram devolvidos. As vítimas eram forçadas a assinar contratos anuais que as endividavam, responsabilizando-as por reembolsos via descontos no salário referente a custos como alimentação, passagens e alojamento, o que reduzia sua remuneração a valores irrisórios.
Qualquer atraso ou erro na execução dos golpes também resultava em penalidades financeiras. Um documento de uma vítima detalhava os custos obrigatórios caso ela decidisse deixar o local, resultando em uma conta exorbitante de US$ 12.439 (cerca de R$ 64 mil), abrangendo despesas como transporte, passagem aérea, aluguel, alimentação e taxas diversas.
Além do peso da dívida, um forte aparato de segurança impedia as vítimas de procurar ajuda. O complexo de Poipet contava com múltiplos postos de controle e muros altos, cercados com arame farpado, sem que houvesse pontos cegos nas câmeras de segurança.
Localizados em áreas afastadas do centro da cidade, os dois prédios de cinco andares cada eram cercados por caminhos de terra e pouco comércio, indicando que a clausura das operações afetou negativamente os residentes locais. Hoeung, a vizinha, perdeu uma fonte de renda, mas ficou aliviada com o fim das atividades hostis. “Se eles estavam lá, isso não me ajudava, mas agora que foram embora, percebo que é parte do trabalho do governo rescatar a todos.”
Cenas semelhantes foram observadas em outras localidades do Camboja, como Sihanoukville e a capital Phnom Penh. As fábricas de fraudes no Camboja, assim como em outros países do Sudeste Asiático, têm suas raízes em uma rede regional de cassinos que visavam turistas chineses. Uma decisão nacional que baniu apostas online em agosto de 2019 acelerou a transição para atividades ilegais.
Diante da pressão internacional, principalmente de países como os Estados Unidos e a China, o governo cambojano iniciou uma campanha de combate às fraudes, a partir de julho de 2025. Enfermeiros e atendentes de hospitais locais informaram um aumento significativo no atendimento de estrangeiros que conseguiram escapar dessas redes criminosas, muitos com ferimentos sérios que exigiam cirurgia. Fraturas nos membros tornaram-se comuns, mas o tratamento médico ficou comprometido, pois a maioria era deportada rapidamente.
Organizações internacionais, como a Anistia Internacional, questionam a eficácia da campanha, alegando que as operações apresentaram falhas graves, permitindo que alguns complexos continuassem ativos após as batidas, além de denunciarem a criminalização das vítimas de tráfico humano e a conivência entre autoridades locais e operadores das fraudes.
Em uma declaração à Folha, o ministro da Informação do Camboja, Neth Pheaktra, afirmou que o governo leva as denúncias a sério e que todas as autoridades estão sujeitas à lei. “O Camboja investigará qualquer evidência de que autoridades tenham protegido operações de fraudes online”, comunicou Pheaktra.
O ministro também ressaltou a colaboração com o Brasil em ações conjuntas contra crimes de fraude online, incluindo a repatriação de cidadãos brasileiros detidos e outros casos relevantes.



