Revitalização de Nascente na Capital do Café Conilon: Uma Resposta à Escassez de Água
A transformação ambiental pode surgir de pequenas ações, como demonstrado em São Gabriel da Palha, no Noroeste do Espírito Santo. O início dessa história remonta a 2016, quando a crescente escassez hídrica afetou a comunidade local, dependente da produção de café. A falta de água trouxe insegurança para os agricultores, pressionando os negócios e impactando a vida cotidiana.
Diante desse cenário, Advaldo Antônio Zotelle, fundador da Cooperativa dos Caminhoneiros de São Gabriel da Palha (Coopcam), decidiu agir utilizando a propriedade familiar. Advaldo recorda que, durante sua infância, havia uma nascente na propriedade de Adenilson Francisco Zanotelle, localizada no Córrego General Rondon, que supria a casa da família com água potável. Com o tempo, no entanto, a área enfrentou degradação, perdendo vegetação e se tornando dominada por pastagens, resultando na diminuição da infiltração de água no solo.
Motivado pela recordação da nascente e pela urgência causada pela seca, Advaldo iniciou um trabalho de recuperação do local por meio da construção de barreiras para retenção da água. Assim, delimitou a área, promoveu a limpeza e iniciou a recuperação do solo. Hoje, quatro barragens estão em funcionamento, e aproximadamente 50 a 60 árvores foram plantadas nas cabeceiras da nascente, contribuindo para o ressurgimento da água.
Embora, inicialmente, a ação visasse solucionar um problema imediato, ao longo dos anos, ela evoluiu para um projeto abrangente que combina recuperação ambiental, preservação de recursos hídricos e educação ambiental para as novas gerações. Localizada a cerca de 200 km da capital, São Gabriel da Palha é reconhecida como a Capital Nacional do Café Conilon, com uma produção anual que gera mais de R$ 936 milhões. O café representa cerca de 85,5% da lavoura permanente do município, abrigando a maior cooperativa de café conilon do Brasil, a Cooabriel.
A cadeia produtiva do café envolve um vasto número de agricultores e cooperativas, sendo interceptada diretamente por fatores ambientais, que têm um impacto significativo sobre a produção e segurança de muitos moradores. A eficácia desta cultura é ameaçada não apenas pela seca, mas também por desastres naturais como o incêndio acidental em 2019, que danificou a vegetação ao redor da nascente, exigindo replantio.
As mudanças climáticas agravam essas questões. De acordo com especialistas, o estado do Espírito Santo já enfrenta uma diminuição no volume de chuvas, especialmente desde 2021. A previsão é de que a temperatura na região aumente significativamente até a década de 2080, contribuindo para um futuro mais seco, especialmente no Norte do estado.
Além das implicações para a agricultura, a escassez hídrica pode impactar outros setores, como a indústria e os ecossistemas aquáticos. As áreas mais atingidas são aquelas com maior vulnerabilidade a períodos críticos de falta de água, como regiões Norte e Noroeste.
A Coopcam, estabelecida em 2008, junta 431 cooperados e desempenha um papel crucial no transporte de produtos agrícolas, especialmente café e insumos. O presidente da cooperativa enfatiza a importância da atuação em comunidade, que vai além dos serviços prestados, envolvendo devoluções para a sociedade e colaboração em iniciativas como a recuperação da Nascente Reserva Vovó Lena.
O projeto, que cresceu além da esfera privada, agora inclui escolas e atende a cerca de 460 alunos e famílias nas ações ambientais. A ideia é criar uma conexão com a natureza, promovendo o entendimento da conservação da vegetação e seu papel crucial na preservação do solo e na infiltração de água.
Com 7.500 metros quadrados sendo restaurados, a reserva já demonstra resultados animadores: a primeira barragem acumula água novamente, árvores estão crescendo e a fauna silvestre reaparece. O acompanhamento das mudanças na nascente é contínuo, permitindo a coleta de dados para avaliar o impacto a longo prazo.
Esta iniciativa representa mais do que um esforço isolado; ela visa educar uma nova geração sobre a importância da preservação ambiental e a construção de um futuro sustentável. O cuidado com a natureza é uma prática coletiva que deve ser cultivada com proximidade e compromisso.

