Cada vez mais adolescentes estão procurando apoio para superar a dependência de apostas, observa Luiz Carlos, membro da irmandade Jogadores Anônimos. Ele relata que é comum encontrar jovens a partir dos 14 anos buscando ajuda para lidar com o vício.
Luiz Carlos compartilha que a faixa etária dos participantes do grupo é bastante variada, incluindo jovens de 14 a 35 anos. Um exemplo é Gustavo Pereira, de 24 anos, que começou a fazer apostas online aos 18. Em seis anos de vício, ele perdeu cerca de meio milhão de reais.
Gustavo recorda que, na época, conseguiu transformar R$ 10 mil em até R$ 300 mil, mas eventualmente perdeu todo o dinheiro. A percepção de valor da moeda foi alterada, e ele passou a ver o montante disponível nas casas de apostas de forma distorcida.
Atualmente, Gustavo está há dois meses sem apostar e busca recomeçar vendendo café nas ruas de Lages, em Santa Catarina. Ele usa suas redes sociais para compartilhar seu processo de recuperação e ajudar outras pessoas a superarem o vício.
Em um relato pessoal, ele menciona que durante seis anos sua vida girava em torno das apostas, levando a problemas de saúde mental, como depressão e síndrome do pânico, mas que agora, com muita fé e apoio, conseguiu se libertar.
Especialistas alertam que a facilidade de acesso aos jogos pelo celular aumenta a exposição dos jovens a esse tipo de vício. Dados do Unicef indicam que uma em cada cinco pessoas em nível global começa a apostar online antes dos 11 anos, com uma taxa de 78% a partir dos 12 anos. Uma pesquisa recente no Brasil revelou que 9,5% dos alunos do ensino fundamental e médio fizeram sua primeira aposta aos 11 anos.
Estudos também revelam que canais voltados ao público infantil exploram a imaturidade financeira dos jovens para promover apostas ilegais. A psicóloga Mariana Kehl explica que o cérebro dos jovens ainda passa por um processo de desenvolvimento, o que os torna mais suscetíveis aos impulsos de fazer apostas, pois as áreas responsáveis pelo prazer funcionam de forma acelerada enquanto as que controlam os impulsos e riscos ainda estão em desenvolvimento.
Luiz Carlos, com 71 anos, relembra como seu vício, que começou na década de 1980, era diferente. Naquela época, as pessoas saíam de casa para jogar, e ele enfrentou crises emocionais e financeiras profundas. Agora, ele reitera a dificuldade gerada pela facilidade de carregar um cassino no celular, observando que muitos jovens estão se perdendo no vício das apostas online.
Os relatos de outros membros da irmandade mostram que muitos buscam ajuda após terem perdido tudo. Carla, por exemplo, menciona que o grupo tem recebido pessoas em situações extremas, muitas delas em risco de suicídio devido a dívidas acumuladas por causa das apostas.
Informações do IBICT indicam que, em 2024, aproximadamente 24 milhões de brasileiros apostaram em jogos, e quase metade desses indivíduos entrou em dívida. Rogério, frequentador do grupo, narra como as apostas começaram a afetar seu orçamento familiar e comprometer suas finanças.
O diretor do IBICT observa que as apostas online devem ser vistas como gastos, não como investimentos, advertindo que o descontrole financeiro pode prejudicar o futuro, interferindo em necessidades básicas como moradia e alimentação.
Dados de uma pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) revelam que 34% dos entrevistados precisariam reduzir gastos com apostas para iniciar um curso superior em 2026. Além disso, 14% dos estudantes já matriculados relataram ter atrasado mensalidades ou interrompido cursos devido a despesas com apostas.
Para o diretor da ABMES, esses dados trazem um alerta significativo sobre a influência das apostas na vida educacional dos estudantes. A pesquisa ainda mostra que 34% dos indivíduos deixaram de investir em cursos adicionais ou atividades recreativas devido ao gasto em apostas.
O ECA Digital, sancionado em setembro de 2025 e em vigor desde março de 2026, visa aumentar a proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual. Entre as novidades, destaca-se a responsabilização compartilhada entre plataformas online, famílias e o Estado, além da proibição de acesso a jogos de azar e mecanismos de verificação de idade mais rigorosos.
Profissionais alertam para a importância de que as instituições de ensino se tornem mais atentas ao tema, considerando o impacto das apostas na vida dos jovens. A psicóloga Mariana Kehl ressalta que a publicidade feita por influenciadores pode ser muito prejudicial, pois é frequentemente interpretada como uma recomendação de pessoas de confiança pelos jovens, o que diminui seu senso crítico.



