A dúvida sobre a fala das crianças é comum entre os pais de pequenos. É normal que, ao longo do desenvolvimento da linguagem, as crianças troquem sons, simplifiquem palavras ou tenham dificuldades na pronúncia de determinadas consoantes. O essencial é saber até quando essas alterações são normais e quando se torna necessário buscar uma avaliação profissional.
É importante esclarecer que, ao dizer “tato” em vez de “gato”, a criança não está trocando letras, já que estas pertencem à escrita. Na oralidade, lidamos com sons, chamados fonemas, cuja aquisição ocorre de forma gradual.
Nos primeiros anos de vida, as crianças ainda estão aprendendo a controlar com precisão movimentos dos lábios, língua, mandíbula e palato, além de desenvolver a habilidade de organizar e perceber os diferentes sons do idioma. Portanto, não se pode esperar que uma criança de dois anos se expresse como uma de seis.
Geralmente, aos dois anos, a fala pode apresentar simplificações e dificuldade de compreensão por parte de pessoas que não estão frequentemente em contato com a criança. Por volta dos três anos, a clareza nas palavras costuma aumentar, embora ainda possam ocorrer algumas trocas. Aos quatro anos, espera-se que a fala seja compreensível na maioria das situações, enquanto a aquisição de sons mais complexos, como o “r” e determinados encontros consonantais, pode levar mais tempo. De maneira geral, aos cinco anos, a criança deve já ter dominado a maior parte dos fonemas, com algumas dificuldades específicas podendo persistir até cerca de seis anos, dependendo das características individuais. É essencial observar a evolução, já que uma criança de três anos que troca alguns sons, mas apresenta crescimento no vocabulário e na complexidade das frases, está em uma situação diferente de outra que não mostrou progresso nos últimos meses.
Outro aspecto a ser considerado é verificar se as trocas de sons seguem um padrão. Quando crianças trocam um som por outro de forma sistemática ou simplificam palavras de maneira constante, isso pode ser sinal de um transtorno na fala, como alterações fonológicas ou problemas articulatórios. Nesses casos, o exame de um otorrinolaringologista é fundamental.
Além disso, é crucial lembrar que para se comunicar adequadamente, a criança precisa ter uma boa capacidade auditiva. Problemas como a perda auditiva podem afetar sua percepção dos sons disponíveis na fala, mesmo em casos não graves, como as perdas auditivas leves.
Um exemplo frequente é a otite média com efusão, que consiste na presença de líquido atrás da membrana timpânica. Esta condição é recorrente na infância, podendo ocorrer sem provocar dor ou febre. Embora a criança possa ouvir, os sons chegam de uma maneira abafada. Assim, compreender as sutilezas da linguagem se torna mais difícil, semelhante a tentar aprender um idioma com uma interferência sonora significativa.
Por isso, diante de alterações persistentes na fala, uma avaliação auditiva se torna essencial. Dependendo da idade, exames como audiometria e outros testes auditivos específicos para crianças podem ser realizados. A consulta ao especialista também permite verificar a saúde da orelha externa e da membrana timpânica.
Os pais devem observar certos sinais de alerta, como uma criança que não responde quando chamada, aumenta consideravelmente o volume da TV ou frequentemente pede para repetir o que foi dito. Também é importante ficar atento a aquelas que apresentaram desenvolvimento normal da linguagem, mas depois regrediram ou perderam habilidades adquiridas.
Trocar sons não é sinônimo de atraso na linguagem. Uma criança pode ter dificuldades na pronúncia de algumas palavras, mas ainda assim possuir um bom vocabulário e formular frases adequadas. Por outro lado, outra criança pode falar pouco, não compreender comandos simples ou ter dificuldade em construir frases apropriadas para sua idade. Essa última situação exige uma investigação mais detalhada.
Problemas no desenvolvimento da linguagem podem estar relacionados a diversas condições, como perda auditiva, transtornos na linguagem, alterações motoras da fala e outros transtornos do neurodesenvolvimento. Embora cada criança tenha seu próprio ritmo, há marcos específicos esperados para cada faixa etária. Portanto, esperar indefinidamente não é uma estratégia recomendável.
A recomendação é que a avaliação para capturar possíveis problemas seja feita com antecedência, permitindo tranquilizar os familiares quando o desenvolvimento está adequado ou iniciar intervenções necessárias em caso de dificuldades.
Os pais podem contribuir de maneira significativa para o desenvolvimento da fala, evitando correções insistentes, que podem levar à frustração. Em vez disso, oferecer o modelo correto de forma natural é uma estratégia mais eficaz. Conversar frequentemente, ler histórias, cantar e brincar com palavras são atividades que favorecem a experiência linguística, enquanto a exposição excessiva às telas deve ser reduzida.
Embora algumas trocas na fala sejam comuns nos primeiros anos, espera-se que até os cinco anos a maioria dos sons já esteja corretamente articulada. Se a clareza da fala for insatisfatória, houver muitas trocas, pouca evolução, indícios de atraso na linguagem ou problemas auditivos, não é necessário esperar mais tempo para buscar a avaliação profissional. A avaliação otorrinolaringológica é importante para determinar se estamos diante de um estágio normal do desenvolvimento ou se há uma dificuldade que necessita de tratamento. O acompanhamento da evolução na infância é vital, e identificar sinais de alerta precocemente pode levar a intervenções mais eficazes.

