O Brasil está prestes a iniciar a sua saison de plantio, mas para agricultores como Irineu Orth, a expectativa não é de celebração, mesmo em um ano que promete ser recorde para a produção de soja. A crise global do diesel, que coincide com um aumento sazonal da demanda por este combustível essencial para a agricultura, tem trazido incertezas.
Como maior exportador mundial de produtos como soja, algodão, café e açúcar, o Brasil depende do diesel para alimentar seus tratores e caminhões, e qualquer aumento nos custos pode impactar toda a cadeia produtiva global. O país ocupa o segundo lugar como maior importador de diesel, logo atrás da Austrália, e a época de plantio pode intensificar a crise já existente. Além disso, o aumento da dependência do diesel americano pode acarretar preços ainda mais elevados nos Estados Unidos, que é o maior fornecedor mundial do combustível, em um momento crucial, próximo às eleições de meio de mandato.
Irineu Orth, que planeja cultivar uma área de 22.000 acres, equivalente à Disney World, expressou sua preocupação: “Toda atividade agrícola exige diesel, e os elevados custos estão corroendo nossa margem de lucro.” A situação é agravada por conflitos no Irã, que disruptaram os mercados globais de energia, enquanto embarques de produtos refinados, como o diesel, diminuíram significativamente.
Com a campanha de plantio de soja e algodão se aproximando, a demanda por diesel nos EUA deve aumentar, especialmente com a venda da safra de milho, elevando o consumo em quase 200.000 barris por dia acima do usual. Nos últimos quatro anos, as importações brasileiras de diesel e gasóleo atingiram o pico em setembro.
Agricultores que operam suas máquinas agora estão enfrentando os preços sazonais de diesel mais altos em quatro anos, em meio a um cenário de conflitos internacionais que desestabilizam as rotas comerciais. Os produtores americanos, que anteriormente eram responsáveis por mais de 80% do diesel importado pelo Brasil, viram sua participação no mercado cair desde o início da guerra na Ucrânia em 2022. O diesel russo, que antes fluía para a Europa, tem encontrado novos mercados no Brasil e na Turquia.
Curiosamente, em julho, quando a Rússia interrompeu suas exportações, o Brasil adquiriu a maior quantia de diesel dos EUA em quase quatro anos, evidenciando um movimento brusco nas dinâmicas de importação. Fornecedores como Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita têm dificuldades devido ao tráfego intermitente no Estreito de Ormuz.
As refinarias brasileiras, que operam a cerca de 95% de sua capacidade, ainda precisam importar diesel para suprir a demanda existente. A dependência crescente do combustível americano suscita preocupações, uma vez que o estoque nos EUA se encontra em níveis historicamente baixos, antes do início da própria temporada de colheita no país, que coincide com o início da demanda por óleo de aquecimento.
Bell, especialista na área, destacou que setembro é um mês importante, com a temporada de plantio no Hemisfério Sul e a colheita no Hemisfério Norte, fazendo com que a demanda por diesel atinja excecionais volumes em outubro. Navios-tanque vindo dos portos do Golfo dos EUA estão a caminho do Brasil, mas existem alternativas, como o diesel da Coreia do Sul, embora essa opção possa se tornar inviável após outubro, quando a demanda mantiver-se alta.
Por enquanto, o mercado de diesel parece estável, evitando crises grandes com longas filas em postos de gasolina, mas a incerteza ainda persiste. A situação poderia se agravar com a interrupção inesperada de uma refinaria nos EUA. Agricultores, como Orth, ao completarem a colheita da safra de inverno e se prepararem para o plantio na Bahia, admitiram sentir pouca influência sobre os preços elevados do diesel. Orth compartilhou sua filosofia: “Como agricultor, você precisa seguir em frente e fazer o que é necessário”.
Apesar dos altos preços do diesel, houve uma leve queda desde os picos de março, com as refinarias da Petrobras operando em plena capacidade. No entanto, se uma grande refinaria falhar, a dependência de importações, especialmente dos EUA, pode aumentar significativamente.



