As eleições que ocorrem neste domingo (4) no Brasil representam um marco inédito para a América Latina, de acordo com a especialista em ciência política Guadalupe González. A possibilidade de Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT, ser eleito pode interromper as ambições geopolíticas dos Estados Unidos na região, enquanto a vitória de Flávio Bolsonaro, do PL, indicaria um alinhamento quase total com Washington.
González destaca que o resultado do pleito não diz respeito apenas ao Brasil, mas também ao papel que a América Latina poderá desempenhar nas próximas décadas, seja como um ator independente com suas próprias pautas ou servindo aos interesses dos EUA em restaurar sua influência na área. Essa dinâmica tornou-se mais pronunciada com a nova política externa de Washington, especialmente desde o retorno de Donald Trump à presidência.
A eleição de Flávio Bolsonaro, segundo ela, se somaria a uma série de triunfos da direita na América Latina, que poderia deixar o México isolado. Recentemente, governos de tendências conservadoras foram eleitos em países como Bolívia, Chile, Colômbia e Peru.
Embora Guadalupe aponte essa mudança como significativa, ela ressalta que a maioria dos países da América Latina (64%) ainda é governada por administrações de centro e centro-esquerda, enquanto aproximadamente 35% a 36% estão sob governos de direita ou centro-direita. Isso, segundo ela, reflete a relevância da eleição brasileira no contexto mais amplo da região.
Adicionalmente, o Brasil se destaca como uma das nações latino-americanas com maior influência em fóruns multilaterais fora da região, ao contrário do México, que possui um peso menor. Guadalupe considera o Brasil um contrapeso capaz de atuar com maior margem de manobra em instâncias como o Brics.
Os planos dos EUA para a América Latina tornaram-se mais evidentes quando, em novembro do ano passado, foi revelada, através de um documento da Estratégia de Segurança Nacional, a intenção de recuperar a preeminência americana na região.
Para a pesquisadora, há um movimento significativo em curso: a desintegração de uma ordem liberal e multilateral na América Latina. Segundo ela, os Estados Unidos já não são uma potência hegemônica, mas sim uma potência em declínio. Nesse novo cenário, a abordagem passa a ser menos sobre a construção de alianças e mais sobre impor mudanças à força, um método que tem caracterizado o domínio americano nas últimas décadas.
Um exemplo marcante dessa mudança é a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, no início deste ano. A prisão ocorreu após uma série de operações de combate ao narcotráfico, sem demonstrar resistência significativa ou reação de outros países latino-americanos ou do Conselho de Segurança da ONU.
Neste contexto, a preocupação com a segurança, que é uma questão histórica na América Latina, foi explorada por Trump para estabelecer uma agenda de segurança mais rigorosa.
Além das eleições brasileiras, as próximas eleições de meio mandato nos EUA também serão um teste para o projeto político de Trump, que acontece em um momento em que ele enfrenta baixa popularidade.
González observa que a aliança cega de alguns governos latino-americanos com Washington pode ser uma estratégia arriscada. Ela sugere que, neste momento, os EUA já não representam um parceiro confiável nem para seus aliados mais próximos. No entanto, na América Latina, essa percepção parece carecer de atenção. Ela assinala que muitos países da região estão perdendo oportunidades valiosas ao se submeterem indiscriminadamente aos interesses americanos, especialmente em um período em que Trump enfrenta desafios internos significativos.
A pesquisadora enfatiza que a América Latina deveria refletir: “O que acontece com nossa aliança se um democrata voltar ao poder nos EUA?”.
Raio-x | Guadalupe González, 71 anos
Possui mestrado em sociologia pela London School of Economics and Political Science e doutorado em ciência política pela Universidade da Califórnia. É pesquisadora do Centro de Estudos Internacionais do Colegio de México.



