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quinta-feira, setembro 3, 2026
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Empresas reduzirão investimentos ao mínimo em 2027 devido aos juros, projeta Fitch.

O impacto do aperto de crédito gerado pelas altas taxas de juros durante um período prolongado não levará a uma crise iminente, mas o ano de 2027 pode ser marcado pelo menor índice de investimentos das empresas brasileiras em muitos anos, segundo Renato Donatti, diretor sênior de Corporate, Infraestrutura e Project Finance da Fitch Ratings.

De acordo com Donatti, as empresas deverão priorizar cortes em áreas que podem controlar, como investimentos, devido aos altos custos. Ele prevê que, em 2027, o nível de investimento estará apenas em linha com a depreciação para garantir a manutenção da qualidade dos ativos. “As empresas da nossa carteira estão se aproximando do mínimo necessário em termos de investimento”, acrescentou.

O executivo menciona que há uma expectativa de leve melhora nas empresas para o próximo ano, contudo, isso depende da rapidez com que as taxas de juros serão reduzidas. Este cenário justifica a quantidade de empresas que tiveram sua nota de crédito rebaixada pela Fitch este ano: das 25 impactadas, 40% foram devido a pressões no fluxo de caixa relacionadas a dificuldades em desalavancagem, enquanto outros 40% enfrentaram problemas de liquidez, como reestruturações de dívida e casos de recuperação judicial.

Embora não perceba um risco generalizado de liquidez no Brasil, Donatti observa uma maior tendência entre as empresas de buscar proteção contra credores, seja judicialmente ou não. Isso ocorre em um contexto em que financeiros, credores e bancos estão mais cautelosos em continuar a financiar empresas que apresentam balanços financeiros estressados e que consomem caixa de forma recorrente.

Os setores mais vulneráveis incluem varejo e consumo, que ressentem o aumento da taxa de juros e o endividamento das famílias. O setor de saúde, que se expandiu consideravelmente por meio de fusões e aquisições quando os juros eram baixos, também enfrenta desafios significativos e é responsável por uma parte substancial dos rebaixamentos realizados pela Fitch.

Donatti manifesta preocupação particularmente em relação ao agronegócio para 2027, devido às implicações climáticas do fenômeno El Niño e os efeitos dos preços de fertilizantes, afetados pela guerra no Irã e pelas tarifas de importação. Ele também menciona potenciais impactos no varejo com a possibilidade de alteração na jornada de trabalho 6 x 1 e a realização do leilão de baterias.

No que se refere a grandes projetos de infraestrutura, incluindo portos, aeroportos, energia e concessões, Donatti revela que um terço dos projetos acompanhados pela Fitch tem perspectivas negativas, e a metade destes refere-se a iniciativas de energia eólica e solar que estão enfrentando dificuldades conjunturais.

Uma notícia que alivia um pouco a situação é que, ao contrário do que ocorreu entre 2015 e 2016, não se observa uma crise de demanda. Conforme Donatti, ao examinar os fundamentos, as operações das empresas estão preservadas. As projeções para receita e Ebitda devem continuar a mostrar crescimento nos anos seguintes, mantendo a rentabilidade em níveis adequados.

O executivo acredita que o endividamento continuará, mas em um ritmo reduzido, uma vez que as empresas já consumiram considerável caixa nos últimos anos. Para 2026 e 2027, há previsão de uma leve melhora, dependendo das taxas de juros e dos níveis de investimento.

Donatti menciona que não há previsões de dificuldades maiores em termos de liquidez no mercado, dado que a maior parte dos R$ 300 bilhões em vencimentos de dívida já foi refinanciada. Nos próximos anos, a previsão é de cerca de R$ 210 bilhões em vencimentos anuais, um montante que é considerado administrável, especialmente porque as empresas que estão nessa faixa de dívida apresentam ratings mais elevados e boa flexibilidade financeira.

Além disso, ele ressalta a expansão do mercado de capitais brasileiro, com a captação de R$ 1,4 trilhão em instrumentos de dívida nos últimos dois anos, que possibilitou um importante alongamento das obrigações financeiras, especialmente antes dos conflitos no Oriente Médio e da instabilidade política provocada pelas eleições. No cenário internacional, o apetite dos investidores pelo Brasil diminuiu significativamente, resultando em um grande recuo nas emissões de dívida este ano.

Por fim, Donatti acredita que, para que a Fitch possa ter uma visão mais otimista sobre as empresas brasileiras, seriam necessárias maior estabilidade, solução para conflitos geopolíticos e redução de tarifas que possibilitem a queda da inflação, criando espaço para o Banco Central reduzir as taxas de juros. Ele enfatiza a importância da manutenção da liquidez no mercado local, permitindo que as empresas consigam enfrentar os desafios pelos próximos 12 a 18 meses, evitando riscos relacionados a refinanciamentos.

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