Na quarta-feira (2), famílias nepalesas realizaram cerimônias fúnebres simbólicas para “libertar as almas” de parentes que ainda estão desaparecidos após a devastadora avalanche de lama e detritos que atingiu a região do Himalaia, próxima à fronteira com a China, há uma semana.
O desastre teve início em 26 de agosto, quando o colapso de uma geleira gerou uma onda maciça de água, rochas e lama. O evento afetou áreas tanto do Nepal quanto da China, resultando na morte de pelo menos 1.130 pessoas e deixando 4.462 outros desaparecidos, de acordo com informações fornecidas pelas autoridades de ambos os países.
Após dias de buscas em abrigos e necrotérios, os parentes das vítimas realizaram os últimos rituais. Em cerimônias de tradição hindu, foram queimadas efígies de palha como forma de despedida. Dolma Newar Tamang, durante o funeral de seu marido, declarou: “Precisamos fazer isso para libertar a alma dele, para que fique em paz e feliz onde quer que esteja”.
Apesar das comemorações fúnebres, as equipes de resgate continuam otimistas em encontrar sobreviventes, especialmente nos túneis de centrais hidrelétricas que foram atingidas pela enxurrada. Um dos focos principais de busca está na usina hidrelétrica de Rasuwagadhi, localizada no distrito de Rasuwa, a cerca de 5 km da fronteira com a China. Amhsu Kiran Shahi, membro do conselho da Autoridade de Eletricidade do Nepal, informou que 46 pessoas podem estar presas em uma sala dentro de um túnel da usina. Ele expressou esperança ao dizer que “estamos muito confiantes de que devem estar vivas depois de uma semana porque têm comida e água”.
Até agora, os socorristas conseguiram resgatar apenas corpos que estavam em túneis obstruídos pela lama, mas continuam a escavar, perfurar e remover toneladas de escombros na busca por possíveis sobreviventes. No total, 279 pessoas foram resgatadas de projetos hidrelétricos afetados pela enchente, enquanto 639 outras ainda estão desaparecidas e algumas delas podem estar presas nos túneis.
O ministro das Relações Exteriores do Nepal, Shisir Khanal, afirmou que ainda tem esperança de que alguns dos desaparecidos possam ser encontrados com vida. “Milagres acontecem”, destacou, acrescentando que “no momento, não quero perder completamente a esperança”.
As operações de resgate envolvem equipes do Nepal, da Índia e da China, além de especialistas de outros países, que estão utilizando toda a tecnologia disponível para ajudar nas buscas. Shahi afirmou que também estão recebendo assistência de profissionais da Índia, China, Coreia do Sul e Austrália.
A dimensão da devastação tem gerado indignação, especialmente em um país com recursos limitados como o Nepal, que possui aproximadamente 30 milhões de habitantes. O primeiro-ministro nepalês, Balendra Shah, afirmou que a tragédia é um “sinal sério de que os riscos na região do Himalaia estão aumentando em decorrência das mudanças climáticas”.
Estudos indicam que o Himalaia, a maior cordilheira do mundo, está se aquecendo rapidamente devido ao aumento das temperaturas globais, o que acelera o derretimento de geleiras que são crucial para o abastecimento de água de milhões de pessoas na região. O primeiro-ministro enfatizou que “as mudanças climáticas são um desafio global e a resposta a desastres deve ser uma responsabilidade compartilhada”.
Esse trágico evento ocorre em um contexto de dificuldades políticas e econômicas para o Nepal. O país comemora, neste mês, um ano de protestos em massa contra a corrupção e a crise econômica que resultaram na queda do governo anterior. Com os necrotérios superlotados, as autoridades começaram a enterrar centenas de corpos não identificados após a realização de exames de DNA.
Mais de 800 estrangeiros de mais de 30 países estão entre os desaparecidos, sendo 583 no Nepal e 261 na China. Esse grupo inclui turistas que estavam na área para trilhas no Himalaia e peregrinos hindus que se dirigiam ao monte Kailash, no Tibete. Além disso, pelo menos 17 corpos foram encontrados em rios na Índia, e as autoridades suspeitam que possam ser vítimas da avalanche.
A magnitude da destruição é impressionante. Uma avaliação inicial do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento aponta que o desastre gerou pelo menos 2,2 milhões de toneladas de detritos, incluindo partes de construções e sedimentos, o que equivale ao peso de cerca de seis edifícios Empire State.
Na China, jornalistas estrangeiros enfrentaram dificuldades para cobrir a situação no Tibete, pois as autoridades controlam rigorosamente o acesso a informações na região. Organizações de defesa do Tibete em exílio questionaram a narrativa oficial das autoridades chinesas sobre o desastre. O governo da China, por sua vez, declarou que a divulgação de informações tem sido “aberta, transparente e oportuna”.



