sexta-feira, outubro 9, 2026
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O Nobel da Paz: Legado de Trajetórias Políticas e Controvérsias

Na próxima sexta-feira (9), o Comitê Norueguês do Nobel anunciará o vencedor do Nobel da Paz de 2026 em Oslo, adicionando mais um nome à longa lista de laureados que inclui dissidentes, figuras políticas e defensores de acordos históricos, com mais de um século de história.

Entretanto, a premiação não garante o sucesso ou a reputação do agraciado. Alguns laureados conseguiram transformar o prêmio em poder político ou aumentaram seu prestígio, enquanto outros, anos depois, foram associados a guerras e polêmicas que levantaram questionamentos sobre as escolhas do comitê.

Em 2025, María Corina Machado foi reconhecida por sua luta contra o regime de Nicolás Maduro na Venezuela, destacando sua defesa dos direitos democráticos e a busca por uma mudança pacífica do governo. Na ocasião, Machado estava escondida devido à repressão após a eleição presidencial de 2024, que muitos consideraram fraudulenta.

Contudo, a situação ficou tensa quando, ao receber a honraria, María Corina também a dedicou a Donald Trump, endossando as operações militares americanas no Caribe voltadas ao combate ao narcotráfico. Essa tensão se intensificou quando, em janeiro de 2026, uma operação militar dos EUA removeu Maduro do poder, momento em que Maria Corina entregou sua medalha ao presidente americano como uma forma de reconhecimento. O Instituto Nobel, no entanto, teve que esclarecer que o prêmio não poderia ser transferido ou compartilhado. Posteriormente, as autoridades americanas priorizaram o diálogo com Delcy Rodríguez, a ex-vice de Maduro, deixando a opositora fora do processo que esperava liderar.

No ano anterior, Narges Mohammadi foi agraciada com o Nobel da Paz de 2023 em reconhecimento à sua luta contra a opressão das mulheres no Irã e sua defesa dos direitos humanos. Detida em Teerã, ela não pôde comparecer à cerimônia, sendo representada pelos filhos. O comitê destacou que, até então, Mohammadi tinha sido presa 13 vezes e acumulava longas condenações. A premiada continuou sua militância mesmo após o Nobel, mas enfrentou nova detenção em dezembro de 2025, culminando em uma pena de sete anos e meio de prisão.

Abiy Ahmed Ali, premiado em 2019, teve sua preocupação análoga. O primeiro-ministro etíope foi reconhecido por encerrar duas décadas de hostilidade com a Eritreia, mas em novembro de 2020, um novo conflito eclodiu em Tigré, resultando em uma guerra brutal que deixou cerca de 600 mil mortos. Embora as reformas internas tenham sido elogiadas, a nova guerra mostrou uma realidade oposta à premiação.

Malala Yousafzai, que dividiu o prêmio de 2014, se destacou por sua luta pela educação, especialmente para meninas. Sobrevivente de um ataque do Talibã, tornou-se a figura mais jovem a receber um Nobel. Embora expandisse seu reconhecimento global, enfrentou desconfiança em seu país natal, o Paquistão, onde sua imagem era questionada.

Barack Obama, em 2009, recebeu o prêmio após pouco tempo no cargo. O comitê valorou sua diplomacia e esforços por um mundo sem armas nucleares, mas a escolha foi criticada como uma antecipação do que ele ainda não havia realizado. O envio de mais tropas ao Afeganistão pouco antes da cerimônia evidenciou a contradição da decisão.

Os prêmios para Yasser Arafat, Yitzhak Rabin e Shimon Peres em 1994 reconheceram os Acordos de Oslo, mas logo se tornaram controversos, devido a assassínios e a deterioração do processo de paz. Já em 1993, Nelson Mandela e Frederik Willem de Klerk foram laureados pelo fim do apartheid na África do Sul, com um resultado positivo nas eleições democráticas de 1994, mesmo que as assimetrias em suas trajetórias profundas permanecessem.

Aung San Suu Kyi, que recebeu o Nobel em 1991, ganhou reconhecimento internacional por sua oposição à junta militar. Contudo, sua reputação sofreu um revés quando ocupou um cargo de poder e se viu criticada por sua defesa perante a perseguição aos rohingyas.

Por sua vez, Mikhail Gorbachev foi premiado em 1990 por seu papel nas mudanças na Guerra Fria. Todavia, a escolha não foi bem recebida internamente, sendo avaliada negativamente pelo Partido Comunista soviético.

Finalmente, Henry Kissinger, agraciado em 1973, dividiu o prêmio pelos Acordos de Paris relacionados à Guerra do Vietnã, uma escolha marcada pela controvérsia e que, anos depois, mostrou-se problemática em virtude de suas ações controversas na política externa.

O Nobel da Paz continua, assim, a ser um símbolo que, embora reconheça conquistas, também expõe as complexas realidades e consequências das escolhas políticas dos laureados.

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