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O Ouro Construído por Taiwan

Taiwan tem se destacado como um exemplo notável na busca por prosperidade em um mundo onde a riqueza natural não é sempre sinônimo de sucesso econômico. Apesar de ser uma ilha pequena e situada em uma região geopolítica instável, Taiwan compensa sua limitação territorial com uma estratégia inteligente de desenvolvimento industrial. No primeiro trimestre de 2026, o Produto Interno Bruto (PIB) real da ilha subiu 14,55% em comparação ao mesmo período do ano anterior, marcando o crescimento mais acelerado em 48 anos, segundo dados do DGBAS.

A previsão oficial para o crescimento do PIB em 2026 foi elevada para 9,64%, o que representa a maior taxa em 16 anos. Esse avanço é impulsionado pela crescente demanda global por inteligência artificial, semicondutores de última geração, servidores e computação de alto desempenho. Assim, a economia taiwanesa não se beneficiou de novas jazidas naturais, mas sim de uma infraestrutura bem desenvolvida no setor digital.

Embora a inteligência artificial seja muitas vezes vista como um conjunto de algoritmos e softwares, sua implementação depende fortemente de infraestrutura física, como energia, máquinas, data centers e, especialmente, chips. Sem os semicondutores adequados, o potencial para treinamento em larga escala, inferência e automação é limitado. O século XXI pode parecer imaterial, mas suas fundações são definitivamente tangíveis.

A TSMC é um exemplo emblemático desse processo. Fundada em 1987, a empresa tornou-se a principal fabricante global de chips, beneficiando-se da transferência de tecnologia e conhecimento do ITRI. Empresas líderes em inteligência artificial e computação em nuvem dependem dessa capacidade produtiva.

Taiwan não recebeu um bônus de recursos naturais, mas conquistou sua posição por meio de pesquisa aplicada, formação de engenheiros, ética industrial e integração nas cadeias globais. A experiência do ITRI demonstra que o Estado não deve substituir o mercado, mas criar condições favoráveis para um desenvolvimento produtivo inteligente e em escala.

Este percurso também desmistifica uma crença comum: países ricos em recursos naturais não necessariamente prosperam. A abundância pode, na verdade, dificultar a diversificação e criar dependências frágeis. Existem economias com recursos minerais limitados que se tornam essenciais por meio da educação, investimento em conhecimento e escolhas estratégicas em setores competitivos.

Entretanto, Taiwan não está isenta de desafios. A forte concentração na produção de semicondutores a torna vulnerável a crises tecnológicas. Adicionalmente, a pressão internacional, especialmente da China e dos Estados Unidos, para uma cadeia produtiva mais resiliente, ilustra como as vantagens conquistadas podem ser contestadas e redistribuídas. Portanto, uma estratégia prudente deve incluir inovações contínuas.

Para executivos brasileiros, a experiência de Taiwan levanta uma questão crucial: o Brasil tem se preparado de maneira disciplinada para as oportunidades que a próxima década vai exigir? Setores como agrotecnologia, bioeconomia e energias renováveis apresentam um potencial real, mas é preciso ir além do potencial, criando uma política produtiva robusta, instituições confiáveis e um acúmulo consciente de conhecimento.

Enquanto o século XX foi marcado pelo petróleo, que impulsionou economias e conflitos, o século XXI é dominado por chips que movimentam dados, segurança, finanças e inteligência artificial. Essa mudança é estrutural: enquanto o petróleo é extraído, a capacidade tecnológica deve ser cultivada. Taiwan exemplifica que o verdadeiro recurso de uma nação pode estar na habilidade de transformar conhecimento em indústria, e daí em estratégia e futuro.

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