A Polícia Federal finalizou seu primeiro inquérito sobre as irregularidades envolvendo o Banco Master, resultando no indiciamento do banqueiro Daniel Vorcaro e do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, por crimes financeiros relacionados à venda de R$ 17,5 bilhões em carteiras de crédito ao banco público do Distrito Federal. Outras pessoas, incluindo ex-diretores de ambas as instituições, também foram implicadas.
De acordo com a PF, uma fraudes envolvendo pelo menos R$ 12 bilhões em ativos ocorreram, particularmente devido à criação de falsas carteiras de crédito consignado. A defesa de Vorcaro argumentou que não houve dano ao BRB, já que as carteiras de crédito consignado foram trocadas por outros ativos, e a revogação de sua prisão foi solicitada. Já a defesa de Paulo Henrique Costa afirma que ele desconhecia as irregularidades e seguiu ordens do acionista majoritário, o governo do Distrito Federal.
Vorcaro foi indiciado por gestão fraudulenta, indução a erro de investidores em operações financeiras, fraudes fiscais, organização criminosa e lavagem de dinheiro — crimes que, juntos, podem resultar em penas que variam de 12 a 41 anos. Sua situação pode ser agravada devido a seu posicionamento como suposto líder da organização criminosa. Paulo Henrique, por sua vez, foi indiciado apenas por gestão fraudulenta e organização criminosa.
A PF ressaltou que a conexão de Vorcaro aos crimes vai além de sua posição formal no Banco Master, uma vez que ele teve uma participação ativa em todas as etapas envolvidas nas operações. O relatório critica a falta de diligência e a não observância dos princípios de validação e governança nas operações realizadas. As carteiras cedidas ao BRB incluíam produtos como crédito consignado, empréstimos pessoais e crédito rotativo, todas vendidas entre julho de 2024 e outubro de 2025, mesmo após o Banco Central ter barrado a negociação.
Além disso, o BRB foi acusado de ter bypassed governance mechanisms ao aprovar investimentos que não tinham lastro, utilizando planilhas de Excel com informações falsificadas. Segundo a PF, a falta de validação dos ativos compromete a segurança e a viabilidade das transações realizadas.
Este indiciamento marca o início da Operação Compliance Zero, que foi deflagrada em novembro do ano anterior para investigar uma série de crimes relacionados ao Banco Master. O relatório foi elaborado e enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), incluindo também outros diretores do banco que participaram da operação.
Além de Vorcaro e Paulo Henrique, foram indiciados outros indivíduos, como ex-sócios e diretores do Master e do BRB. O material será enviado ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para que decida sobre a apresentação de denúncias, sendo este um passo para que Vorcaro seja formalmente acusado.
Vorcaro foi detido por 11 dias em novembro do ano anterior e, após o caso ser transferido ao STF, foi novamente preso em março deste ano, enquanto Paulo Henrique cumpre pena desde abril. A PF também expôs que Vorcaro estava diretamente envolvido na venda de carteiras de crédito que não possuíam lastro real e foram falsificadas por meio de uma empresa ligada ao Banco Master.
As conversas interceptadas sugerem que o Banco Master contava com recursos do BRB para manter sua liquidez. Em um diálogo, Vorcaro indicou a necessidade de usar o “depósito compulsório” do banco para cobrir contas, caso não recebesse novos aportes do BRB.
As vendas de carteiras de crédito aumentaram ao longo de 2025, mas foram restringidas depois que o Banco Central bloqueou a venda do Banco Master. Mesmo assim, a PF identificou a cessão de créditos até outubro de 2025, um mês após a proibição da negociação. O Master foi liquidado em 18 de novembro do ano anterior, quando a operação foi iniciada e Vorcaro foi preso.
O escândalo causou um prejuízo bilionário ao BRB, que ainda não foi totalmente quantificado. O banco está buscando um empréstimo de R$ 6,6 bilhões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para cobrir essas perdas, e até o momento não divulgou os balanços financeiros do ano passado. A PF estimou que o prejuízo mínimo ao BRB foi de R$ 2,7 bilhões, embora esse valor possa ser maior.
Nas declarações feitas na semana passada, tanto Vorcaro quanto Paulo Henrique afirmaram que a operação entre os bancos era benéfica e não resultou em prejuízos.
Após o início das investigações focadas na venda do Banco Master para o BRB, o escopo foi ampliado com a coleta de provas significativas. Até o momento, foram realizadas dez fases da operação, que abordam desde crimes financeiros até corrupção de agentes públicos e ações orquestradas em redes sociais.
A defesa de Daniel Vorcaro expressou seu descontentamento com o indiciamento, considerando-o precipitado, e argumentou que não há provas de prejuízo ao BRB, uma vez que as operações foram benéficas. Eles também solicitaram a revogação de sua prisão.
Por outro lado, a defesa de Paulo Henrique Costa manifestou surpresa quanto ao indiciamento, enfatizando que ele não tinha conhecimento das fraudes e que suas ações foram sempre registradas e acompanhadas de maneira colegiada. Ele é descrito como alguém que trabalhou para proteger os interesses do BRB e que todos os procedimentos foram seguidos adequadamente.
Ambas as defesas acreditam que a justiça prevalecerá e que a Procuradoria Geral da República reconhecerá a totalidade das evidências que afastam as acusações de gestão fraudulenta e organização criminosa.

