O Ministério Público de São Paulo estipulou um prazo de 72 horas para que o Corinthians apresente a documentação relacionada à dívida acumulada de R$ 642 milhões com a Caixa Econômica Federal, referente ao financiamentos da Neo Química Arena. Esse movimento faz parte de uma investigação que busca esclarecer possíveis irregularidades na cobrança de encargos e multas efetuadas pelo banco estatal ao clube.
Além disso, a Promotoria está analisando se as cobranças foram incluídas em um acordo de renegociação firmado em 2022. O perito Anísio Costa Castelo Branco, que redigiu um dossiê sobre a referida dívida, foi retirado do processo, e a investigação também envolve a KPMG e o escritório Machado Meyer Advogados.
Em declarações, a Caixa Econômica destacou que não comenta especificidades de contratos de crédito devido ao sigilo bancário, mas mencionou que o financiamento respeita rigorosamente as normas legais e do Banco Central do Brasil. Por sua vez, o Corinthians, quando contatado, não se manifestou sobre a questão, mas se mostrou disposto a colaborar.
Segundo o promotor Cássio Roberto Conserino, o clube demonstrou interesse em participar da investigação, mas não forneceu documentação ao perito excluído do processo. Esse perito, que tinha sido convocado para uma comissão revisora, havia elaborado um dossiê baseado em documentos públicos.
A Promotoria requisitou esclarecimentos sobre a participação do perito em discussões internas do Corinthians, destacando que ele foi recebido pelo presidente Osmar Stábile em setembro de 2026. O foco da investigação é uma multa de 10% que consta no contrato do clube com a Caixa, que foi aplicada de maneira abrangente sobre o total do contrato, resultando em uma cobrança significativa. A análise do perito aponta que a penalidade deveria ser aplicada unicamente sobre as obrigações já vencidas e não cumpridas.
De acordo com o relatório, essa metodologia de cálculo gerou uma cobrança indevida em agosto de 2019, valor que, atualizado, totaliza R$ 70.856.430,91. Se considerando a repetição de indébito em dobro e honorários advocatícios, o valor que poderia ser recuperado pelo Corinthians chegaria a R$ 431.229.105,03.
A Promotoria exige uma planilha detalhada da dívida desde novembro de 2013 para entender a evolução do débito e verificar se houve sua incorporação na renegociação de julho de 2022. A Caixa e as empresas envolvidas, como KPMG e Machado Meyer, também foram notificadas para fornecer declarações sobre suas análises contábeis e jurídicas.
Embora esteja devendo R$ 642 milhões, o Corinthians alega já ter pago aproximadamente R$ 600 milhões pela construção da Arena em Itaquera, com esse valor sendo reajustado anualmente com base no CDI e em uma taxa adicional de 2%.
Em 2022, um novo acordo com a Caixa definiu a dívida naquele momento em R$ 611 milhões, com a expectativa de que o pagamento se estenda por 20 anos. Após a reestruturação, as parcelas passaram a ser trimestrais, financiadas por receitas oriundas do contrato de naming rights da Neo Química Arena e da venda de ingressos.
Entre 2019 e 2022, a suspensão dos pagamentos resultou em um aumento dos encargos da dívida, e, após a renegociação, a amortização do principal só teve início em 2025. Durante esse período, a torcida corintiana também se mobilizou, contribuindo com cerca de R$ 40,9 milhões para diminuir o montante da dívida.

