A política monetária restritiva implementada pelo Banco Central (BC) está impactando significativamente a economia brasileira no segundo semestre de 2023. O aumento da inadimplência e o número de pedidos de recuperação judicial, como o protocolado pela Casas Bahia no último domingo (16), que apresenta uma dívida de aproximadamente R$ 17,3 bilhões, são alguns dos reflexos dessa situação. Apesar dos cortes na taxa Selic — que caiu de 15% para 14% desde março — os juros ainda permanecem elevados, e a falta de um ajuste fiscal em tempo hábil limita uma recuperação mais acelerada. Economistas alertam que isso eleva as chances de uma crise de crédito e recessão em 2027.
“Embora o impacto da alta dos juros tenha demorado a se manifestar, ele finalmente chegou”, afirma Adauto Lima, economista para o Brasil na Franklin Templeton. Ele destaca que tanto empresas quanto famílias estão altamente endividadas e que a persistência de taxas elevadas de juros pode criar uma crise de crédito que prejudicaria ainda mais a economia nos próximos meses. Lima projeta uma probabilidade de 20% de recessão em 2027, mesmo considerando um cenário mais otimista de crescimento de 1,5% no PIB. Ele acredita que o Brasil poderá enfrentar alguns meses de retração, mas não prevê uma crise severa, como a que ocorreu após o governo Dilma Rousseff em 2015 e 2016.
O economista aponta que o mercado de capitais havia atenuado anteriormente os efeitos da alta dos juros, oferecendo alternativas de financiamento para empresas, com incentivos fiscais e menores custos. Contudo, essa situação já apresenta sinais de retrocesso, com uma queda de 28,7% na emissão de debêntures até julho deste ano e uma queda ainda maior na captação de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e do Agronegócio (CRA), de 23,5% e 57,5%, respectivamente.
Adauto Lima também nota um aumento no número de recuperações judiciais e famílias inadimplentes, embora ainda não se observe uma crise generalizada. “No entanto, a incerteza em relação a 2027 é grande”, afirma ele, citando a possibilidade de o Brasil sair dessa fase já enfrentando uma desalavancagem econômica. O Citi, em relatório, ressalta que mesmo a ajuda governamental aos devedores não tem sido eficaz em reduzir a inadimplência, que tende a continuar aumentando.
A atividade econômica já demonstra sinais de desaceleração no terceiro trimestre, e Lima prevê um segundo semestre fraco. Ele acredita que cortes graduais na taxa de juros não resolverão a situação a curto prazo, podendo resultar em um cenário de queda do PIB por alguns meses. Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos, também não descarta a possibilidade de recessão no próximo ano, embora considere que a probabilidade de uma queda consecutiva no PIB seja limitada; o foco, segundo ele, deve ser na expectativa de piora da atividade.
Atualmente, a XP projeta um crescimento do PIB de 2% em 2023, com uma queda para 1% em 2027, em meio à redução de estímulos fiscais e a uma política monetária ainda restritiva. As estimativas da XP são mais conservadoras do que a mediana do mercado, que prevê uma Selic de 13,75% em dezembro de 2026 e um PIB de 1,57% em 2027.
Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, acredita que 2027 será um ano desafiador, com limites para expansão fiscal, além de altos níveis de endividamento de empresas e famílias. Ele indica que, se os estímulos fiscais de 2023 forem removidos, isso poderá levar o país a uma recessão severa, semelhante à crise de 2015.
A preocupação com a possibilidade de recessão foi um dos principais tópicos discutidos entre investidores e executivos de varejo em um evento da XP no Rio de Janeiro. Os analistas Danniela Eiger, Pedro Caravina e Laryssa Sumer notaram que os investidores estão atentos aos dados do segundo semestre de 2026 em meio a sinais de desaceleração do consumo.
Margato destaca que a confiança na política econômica será vital nos próximos anos, especialmente em termos fiscais. A falta de sinalizações claras do próximo governo sobre a reforma das contas públicas poderia aumentar os prêmios de risco, impactando negativamente a confiança de investidores e consumidores e levando a uma potencial estagflação.
Para evitar que a desalavancagem econômica culminem em recessão, Lima defende a necessidade de um ajuste fiscal sólido e crível. Embora isso possa inicialmente impactar a atividade econômica, ele acredita que permitiria ao BC reduzir os juros de maneira mais rápida, facilitando o alívio da carga financeira sobre empresas.
Perri sugere que os candidatos à presidência devem já indicar disposição para um ajuste fiscal, mesmo que isso implique cortes de gastos a curto prazo. Para Matheus Jaconeli, analista da plataforma de investimentos ZIIN, existem expectativas de desaceleração, mas não de recessão. Ele ressalta que o início de um novo mandato é o momento propício para ajustes, que se forem implementados, podem ter um impacto positivo significativo na Bolsa.

