Artigo: A nova era do compliance e monitoramento em tempo real
Rafael Gegenheimer de Almeida, Analista de Investigação e Prevenção à Fraude da Unimed Vitória e membro do Comitê Qualificado de Conteúdo de GRC do Ibef-ES, discute em seu artigo a evolução do compliance e a necessidade de se adaptar a um cenário em constante mudança.
O conceito de compliance tradicional, que depende de revisões periódicas e auditorias que analisam o passado, já não é mais eficaz. A crítica a este modelo não é recente; Miklos Vasarhelyi abordou essa questão no final da década de 1980, propondo a auditoria contínua e o monitoramento focado nas exceções. O ideal é manter uma supervisão constante e acionar intervenções humanas somente quando detectadas rupturas nos padrões estabelecidos.
Por muito tempo, essa abordagem foi limitada pelo custo de auditar todas as transações em tempo real. No período de 2022 a 2024, a queda de custos em tecnologia de inteligência artificial de alto desempenho provocou uma transformação significativa. Em 2026, essa prática deixou de ser um obstáculo e passou a ser uma competência essencial para as empresas.
Essa mudança não se refere a uma evolução gradual, mas a uma transformação fundamental. O enfoque passa a ser a totalidade das transações em vez de uma amostra estatística. A auditoria não analisa apenas se “algo aconteceu”, mas sim se “um padrão está se desviando agora”. A nova abordagem de compliance não valida ações passadas, mas sim antecipa anomalias.
Um exemplo evidente seria um fornecedor que, após um período de faturamento dentro de limites normais, começa a emitir notas abaixo do limite de autorização em uma sequência frequente. Enquanto uma auditoria trimestral detectaria o desvio apenas no trimestre seguinte, um sistema de monitoramento contínuo identificaria essa tendência assim que a terceira nota fosse emitida, permitindo intervenções antes que a situação se tornasse crítica.
É importante entender a distinção entre monitoramento e auditoria. A supervisão em tempo real é tarefa da gestão, enquanto a auditoria independente mantém sua relevância. Uma área que se autocontrola, mesmo que com rapidez, não se torna um fiscal independente. A rapidez não implica em autonomia.
Para as lideranças empresariais, a forma como as informações são apresentadas muda substancialmente. O CFO que antes contava com relatórios de conformidade agora passa a analisar um painel dinâmico que retrata riscos de maneira contínua, o que altera a fatia de atenção que a conformidade recebe nas decisões de negócios.
No entanto, é fundamental um alerta: monitoramento contínuo sem uma estrutura analítica robusta pode se tornar apenas um acumular de dados irrelevantes. O verdadeiro desafio em 2026 não é apenas lidar com grandes volumes de informações, mas sim interpretá-las corretamente, distinguir alarmes falsos de alertas significativos e gerenciar modelos de forma eficaz.
A tecnologia pode facilitar a antecipação de dados, mas quem realmente antecipa o risco é o julgamento do analista. Trocar o tradicional checklist por um painel interativo é uma evolução necessária; no entanto, confundir a eficácia do painel com a competência analítica de quem o utiliza é meramente substituir uma ilusão de controle por outra.
Este texto reflete a visão do autor, não representando necessariamente a posição do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo, nem de sua instituição profissional.



