No dia 3 de setembro, Lorena Isceri, de 45 anos, foi vítima de agressão por parte de seu ex-parceiro, que a amarrou e trancou no porta-malas de um veículo. Após dirigir por quase uma hora, ele a retirou do carro e, de maneira brutal, a lançou viva de um viaduto de aproximadamente 30 metros de altura, nas proximidades de Florença, na Itália. A agressão resultou na morte imediata de Lorena, e em seguida, o homem cometeu suicídio.
Dezessete dias antes, Tania Terrin, de 39 anos, foi estrangulada até a morte por seu ex-companheiro em sua residência, na província de Veneza. Tania já havia denunciado o agressor à polícia por atos de violência. Após o crime, o autor também tirou a própria vida.
Esses dois casos emblemáticos destacam um verão marcado pelo aumento alarmante dos feminicídios na Itália. De acordo com dados do grupo Non Una di Meno, houve 16 feminicídios nos meses de agosto e setembro, em comparação com seis ocorrências nos meses de julho e agosto. No total do ano, já são 56 vítimas, em contraste com 84 em todo o ano de 2025.
A responsável pelo observatório que monitora feminicídios no país destacou que o último mês representa um “pico feroz” de casos. No entanto, o total de homicídios femininos no ano está em conformidade com os dados das estatísticas anteriores, mostrando uma diminuição desde 2020, quando começou o monitoramento.
O período de verão, segundo a especialista mencionada, geralmente é associado a mudanças nos comportamentos sociais que podem levar ao aumento da violência de gênero. Entretanto, ela ressalta que essa não é a razão para o recente aumento nos feminicídios, indicando que a raiz do problema reside nas relações de poder.
Ambas as histórias de Lorena e Tania refletem o tema da posse, o que é considerado um fator central nos casos de violência. Lucros dessa negação de controle e domínio muitas vezes resultam em ações extremas, como o assassinato, seguido pelo suicídio do agressor.
Cristina Carelli, líder de uma rede de apoio a mulheres, compartilha uma avaliação similar, enfatizando que essas mulheres já tinham se afastado de seus agressores e iniciado novas vidas. Para ela, embora haja um aumento significativo nos casos, isso não representa uma nova emergência, mas sim um problema estrutural persistente na sociedade.
O feminicídio foi recentemente classificado como crime no código penal italiano, com pena de prisão perpétua para os agressores. Esta legislação, aprovada por unanimidade, gerou cautela entre especialistas, que questionam a aptidão dos operadores jurídicos para identificar corretamente as nuances do feminicídio.
Um desafio é a compreensão dos termos usados na lei, como “posse” e “controle”, que não possuem definições claras no contexto legal italiano. Isso pode resultar em uma percepção equivocada das circunstâncias que rodeiam a violência, levando a uma vitimização secundária da mulher.
Por outro lado, a nova legislação não tem demonstrado eficácia comprovada em reduzir a violência de gênero e os feminicídios. A especialista frisou que mudanças reais exigem uma revisão das relações de gênero e educação desde a infância sobre a igualdade.
A educação sexual e afetiva é apontada como uma estratégia crucial para a prevenção, visando promover transformações culturais. Contudo, uma nova lei que exige permissão dos pais para que adolescentes participem de aulas desse tipo foi aprovada, o que gera preocupações sobre possíveis retrocessos no avanço educacional nesse campo.
Carelli, que tem uma longa trajetória no combate à violência contra a mulher, explicou que a percepção pública demanda uma mudança cultural significativa. As instituições, segundo ela, devem acolher essas demandas e apoiar uma transformação na sociedade que ainda guarda muitos preconceitos ligados a modelos de gênero arcaicos.
Além disso, especialistas apontam que a contagem oficial de feminicídios pode estar subestimada. O governo contabilizou oito feminicídios no primeiro semestre do ano, enquanto o observatório Non Una di Meno registrou 34 casos no mesmo período, ressaltando uma discrepância entre as estatísticas.



